12 de set de 2016

LENTES














Chegou aquele momento para o nosso herói. Já havia muito tempo que não ia ao oftalmologista. Sua vista estava cansada e distorcida.
Enxergava grandes sombras de coisas pequenas, e coisas grandes projetavam sombras minúsculas. Era uma fase da vida em que sorrisos fáceis não saiam de seus lábios. No entanto, seu cinismo ainda entregava a memória de alguém que já havia cultivado esperanças.

O médico o atendeu com a indiferença e má fé necessária para que as coisas funcionem.

Da máquina o médico arrancou uma papelzinho que indicava quais lentes serviriam melhor ao paciente.

"Vou colocar a lente e você lê para mim o que está na projeção, certo?"
"Certo"

A primeira lente indicava fatalismo

" Não consigo ler nada".

O médico então abaixou a lente "eternidade"
"Consegue ler agora?"
"Sim."
" O que se pode ler?"

"Nada como um dia após outro".
"Exatamente. Sob a ótica da eternidade não existe nada melhor do que um dia após o outro", disse o médico.

"É. Parece justo." Respondeu o paciente.

"Vamos então ao próximo olho.'

Sob a lente da eternidade o outro olho não enxergava nada. Então o médico ajustou para a lente "finitude".

" É agora consegue ler?"
"Sim."
" O que se lê?"
" Não há mal que dure para sempre." Respondeu o herói.
"Exato. Sob a lente da finitude, na há mal que dure para sempre," disse o médico.

Depois de algum tempo o médico escreveu a receita das novas lentes para o nosso herói. Não sei quantos graus para a eternidade e não sei quantos graus para a finitude.

" Olha, nos primeiros dias você vai se sentir desconfortável, talvez até tropece ou sinta tontura por conta dessas novas lentes, mas vai te ajudar a enxergar melhor. Você se sentirá mais ajustado. Sucesso e tudo de bom pra você", disse o médico.

"Que bom!" Disse o nosso herói. " Mas sabe o que mais me anima nisso tudo, doutor?"

"Não, o que é?"

"É que pra sonhar eu não preciso usar óculos."