4 de fev de 2016

Vai passar

Chamam a ansiedade de mal do século. A que ponto chegamos? No século XIX o mal do século consistia em adolescentes bêbados e moribundos escrevendo belas poesias. Depois do filósofo, o poeta é filho e pai de seu próprio tempo. É um pouco como aquela coisa, do menino ser pai do homem.
            A ansiedade, segundo algumas correntes de pensamento religioso-filosófica é o medo do amanhã. Portanto, irreal. Lidar com a ansiedade é um exercícios de ter que lidar com medos que só existem, em tese, dentro da cabeça do ansioso.
            O ansioso é aquele ser que é viciado em pensar em larga escala. O exemplo é o do ansioso que começa uma dieta. Ao invés de pensar naquele almoço, aquela refeição que está diante dele, ele pensa no mês inteiro, ou na semana inteira em que ele não poderá comer chocolate. E por assim fazer, acaba entrando em um círculo vicioso de ansiedade e compulsão. Não vai adiante porque é incapaz de pensar no agora. De focalizar no que tem em suas mãos. Sua cabeça é enorme. Seu mundo é uma configuração de engrenagens milimetricamente articuladas, desenhadas para fazer um sistema de crenças funcionarem. Quando, porém, uma engrenagem, por menor que seja para de funcionar, seu castelo de vento desaba. O que engraçado é que o castelo, ao cair, nem barulho faz...
            Estar ansioso é lidar com algo mais irreal do que fantasmas.
Nem tudo é desastre. Há formas de lidar com a ansiedade: meditação, esporte, sexo, drogas, álcool e por aí vai. Existem opções saudáveis e opções que trocam um dano por outro. Dizem que, às vezes, se chega a um estágio em que a política da contenção de danos é a melhor estratégia. Troca-se um dano por outro, o menos pior.
            Em meio a isso tudo, deparo-me com a dica de pensar o seguinte: “Quando estiver entrando em um looping de ansiedade pense: isso vai passar”. Sim, isso vai passar, tanto para o bem quanto para o mal. A estratégia parecia legítima. Porém comecei a analisar com mais cuidado.
            Fiquei pensando minhas crises de ansiedade de homem branco, contemporâneo, classe média, hetéro e pai do Eduardo. Como é que com esse perfil ainda posso me dar o luxo de ser ansioso? Forcei mais a barra: esse tipo de mal do século é filha do próprio tempo mesmo. Imaginem se um escravo teria o luxo de estar ansioso e pensar para si mesmo: vai passar. Nada passará, tudo é urgente para uma forma de vida como aquela.
            Conclui que a ansiedade é o paradoxo entre o medo do amanha e a falsa noção que há tempo viável para encontrar a condição ideal. Além disso, adicione nessa equação a noção de que essa estratégia do “vai passar” esconde a ideia de que teremos uma vida depois da vida.  Um escravo, por exemplo, não poderia pensar assim. Ele vai sempre estar fodido, pois enquanto vivo é um escravo e diante da moral dos senhores seu corpo não possui alma, logo queimará no inferno!
            ***
            Como mencionado, a ansiedade é um tipo de temor pior que fantasmas. Ao me colocar na perspectiva de um escravo e de sua urgência inevitável de fodido, vi minhas ansiedades como simples matéria de um tolo. O ansioso, assim como eu, é um tolo!
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            Minhas frustrações ficaram ainda menores, quando, andando por aí uma pichação me advertiu: “Autoajuda é o caralho! Nego aprende na pancada!”.