7 de jan de 2016

Sentença


            O portão se arrasta. O guarda dá um passo em seguida um homem avança. Algemas nos braços e nos calcanhares. Seu corpo se move dentro do uniforme cinza, nem tão apertado, nem tão solto, o tipo de medida que ele mesmo jamais encontrou para quando comprava roupas, parece que cada centímetro desse lugar foi pensado para abrigá-lo.
            A recepção é sempre calorosa. O procedimento oficial é executado, não há mistério: o detento recebe higienização, corte de cabelo e barba, verificação da saúde como um todo e uma revisão dos registros. O procedimento extraoficial revela a humanização da instituição. Como todo processo humanizado, esse procedimento é criativo, cada grupo e cada instituição tem sua marca distintiva. Nesse caso, o procedimento de boas-vindas era o seguinte: 10 a 15 minutos de espancamento em silêncio, seguidos de uma lição de moral tirada da bíblia:
“Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus; as que existem foram instituídas por Deus. Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus; e os que a ela se opõem, atraem sobre si a condenação. Romanos 13:1,2. Entendeu seu pedaço de merda? Você é um desordeiro! Seu badernista do caralho!! Agora não ache que você é especial. Você só é mais um merda que foi enviado para cá, e assim como os outros nós vamos te consertar!”
            Depois disso, cela. Um guarda, um preso. As pancadas deixam os internos tão moles que eles começam a seguir ordens sem muita resistência. É verdade que os novos internos não andavam com tanta confiança depois do tratamento extraoficial, pareciam crianças reaprendendo a andar.
            O guarda parou. Em seguida o prisioneiro parou.
            “Cela 42. Entre, durma. Acordamos às 06 da manhã. Pela manhã, sua cara deve estar arrumada, assim como sua cama. Nossas celas são limpas e você deve manter elas assim. Conforme os dias forem passando, você aprenderá sobre nossa rotina, e logo ela será sua rotina. Você será um de nós, porque agirá como um de nós. E quando estiver pronto, poderá voltar para o convívio social”. O guarda terminou de ler as instruções e desejou boa noite.
***
            Pela manhã, a sirene toca. Todos de pé. O recém-chegado observa o companheiro de cela para aprender o que deve ser feito. Dobra o cobertor, estica o lençol na cama e ajeita o travesseiro. O seu companheiro de cela faz com muita rapidez, o novato não.
            “Vamos lá! Termine essa merda direito, ou eu também vou me foder!”, reclama o veterano.
            “Porra, se você está incomodado, porque não vem aqui e arruma você mesmo!”, rebate o novato.
            O veterano responde com um olhar. Respira fundo. Pensa em explicar que se ele ajudar será penalizado e se agredir o novato também será penalizado. Ele já possui dois registros, não quer arriscar o terceiro registro, sabe muito bem o que acontece com as pessoas que têm três registros.
            “Foi o que pensei. Você é um covarde mesmo!”, diz o novato.
            As grades se batem, os portões se arrastam. Equipes de guardas entram no pavilhão. Seus coturnos atingem o solo e ecoam passos orgulhosos. Uma voz anuncia por meio do rádio:
            “Senhores. Bom dia. Inspecionaremos vossas acomodações. Nossas celas são limpas e organizadas, e vamos mantê-las assim. Hoje é o 300º dia de nosso calendário, uma quinta-feira. O clima está ameno e ensolarado, um belo dia para se visitar o parque com a família. Coisa que nem eu nem vocês iremos fazer, é claro por motivos diferentes. Vocês por serem o que são e eu por ter de vigiar suas carcaças. Por isso, não me desapontem. Guardas, comecem a inspeção.”
            Em pares, os guardas abrem as celas. Um fica na porta, o outro entra, verificava as camas, os prisioneiros e sai. Tudo em silencio. Se tudo estivesse bem, a cela era trancada novamente e os prisioneiros poderiam se dirigir para o refeitório.
            “Se prepara novato. Espero que não impliquem com essa arrumação de merda que você fez.”
            “Vocês não tomarão café hoje. Ensine o novato a arrumar a cama direito. Essa bagunça é inaceitável!”
            Socos, chutes e cacetadas.
            “Já não basta a bagunça que fizeram lá fora? Vocês querem fazer zona aqui dentro também? Eu deveria adicionar outro registro em vocês...”
            “Por favor, não!” fala o veterano enquanto tenta se erguer.
            “Quem te deu autorização para falar?”, o guarda suspende a mão, porém hesita. “Você tem muita sorte... vou te poupar de mais um registro... agora ensine o bebezão aí a tomar conta da própria cama. Pelo amor de Deus, vocês tem um trabalho só e mesmo assim conseguem cagar tudo...”
            “Tá feliz agora?”
            “Eu poderia de dar um sorriso de satisfação, mas a minha cara toda dói. Mas que porra é essa? Por que tanto medo de mais um registro?”, perguntou o novato.
            “Você não sabe, não é? Não me surpreende. É o seu primeiro registro?” perguntou o veterano.
            “ Três registros. Isso é necessário para te matarem. Como já estamos presos, não há necessidade de julgamento. O que é decidido aqui e executado aqui. Quando se passa pelo tribunal, pelo menos tem o advogado pra te defender... bem, aqui... aqui dentro  eles são os nossos juízes, nossos advogados e.... e nossos executores...”
            “Mas pensei que essa história de três registros fosse uma lenda...”
            “Toda lenda vem de algum lugar, não é? Pois é... não é uma lenda. Com o nível de detalhamento que essas canalhas conseguiram alcançar, não há nada que escape os olhos do deles... Meu amigo, eles sabem a que horas você caga, a que horas você tem fome... pode parecer exagero, mas suspeito que eles consigam decifrar a hora que você quer meter... nada escapa, ou você anda na linha ou você recebe um registro... aposto que eles sabiam quando eu ia... e é por isso que estamos aqui.”
            O novato senta-se em sua cama. Coloca a cabeça entre suas mãos, seu coração dispara. As coisas começa a se encaixar... ele agora entende porque está ali...
            “Agora presta atenção seu FDP, ou você anda na linha ou você recebe o registro, e se chegar ao terceiro... você some... literalmente some. Já ouviu falar de alguém que tenha recebido o terceiro registro? Claro que não! É porque quando se chega ao terceiro registro não é somente a tua vida que arrancam... eles retiram a memória de sua existência... é impossível provar que alguém existiu, depois que essa pessoa recebe o terceiro registro...”
            “Você deve ser mais um desses malucos. Vai dizer que você acredita na Revolução também?”
            “Ah, muleque... você é jovem demais para lembrar... mas havia um ditado de quando eu era menino: Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.... e é exatamente isso que eles estão fazendo. Eles suspeitam de mim... e é por isso que eu tenho de manter quietinho, sacou?”
            “Você fala muita merda...” falou o novato.
            “Você não se lembra disso... mas a gente se conhece.... o segundo registro faz isso com as pessoas... você pode não acreditar em mim agora... mas logo verá que tenho razão. O primeiro registro já faz com que as pessoas do seu circulo social comecem a esquecer de você, depois o segundo atinge seus relacionamentos mais próximos: amigos, alguns membros da família, etc. O terceiro registro... bem... dizem que é lenda... mas o que escapa é que ninguém se lembra de alguém que teve o terceiro registro...”
            ***
            Passadas algumas semanas, dois guardas chegam à cela 42.
            “Novato, levanta! Seu advogado conseguiu um alvará de soltura. Vamos, você deu sorte. Nem deu tempo de te dar mais um registro...”
            ***
            Todos os dias de manhã era a mesma coisa. Levantava às 06, arrumava a cama, tomava café. Crenças e hábitos dos outros se tornaram crenças e hábitos dele. “Essa é a nossa rotina, logo, logo você fará parte ela também.”. O discurso do guarda ainda reverberava em sua mente: “Nossas celas são limpas, e eu manterei elas assim...”
            A cada mês, o novato tinha de ir até  às autoridades para comprovar que tinha se afastado das má condutas. Numa dessas visitas, passou ao lado de seu advogado.
“Ei Murdock! Como vai? Muito trabalho? Eu te vi dia desses, mas não consegui falar com você, a gente precisava ver como está minha situação. Ter de vir aqui todo mês é um saco e...
            Advogado cortou o novato.

“Desculpe-me senhor, mas como você sabe meu nome?”

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