18 de nov de 2015

Orgasmo na Biblioteca




            Mais uma tarde quente de novembro. A cidade de Vitória é bela e abriga lindas praias. O calor também é outro elemento característico da cidade: calor capixabês. Vitória é aquele tipo de cidade que ainda não se decidiu se quer ser Rio de Janeiro ou São Paulo quando crescer. Engloba a fluidez do imaginário e leveza da orla carioca e ao mesmo tempo apresenta altos arranha-céus e pessoas de terno e grava, em um calor que dura de outubro a junho.
            A universidade fica no meio desses mundos. A universidade é verde. Há uma extensa relva entre prédios, devidamente aparada é claro. Tudo é tão naturalmente artificial. No meio dessa relva há um filete de concreto que interliga os destinos: uma passarela rasga a grama de uma ponta à outra, indica os caminhos. No meio dessa relva, no meio dessa passarela está Ricardo.
            É final de semestre. O moço precisa devolver alguns livros. Dirige-se à biblioteca. Embora ele não saiba, seu corpo poupa energia, um passo de cada vez; sobreviver o calor é uma tarefa  exigente para  o corpo de Ricardo. O suor já percorre por debaixo da mochila. Se ele tirar a mochila das costas poderemos ver o desenho dela marcada no tecido.
            A biblioteca possui três andares. É um dos maiores prédios da universidade. Tem amplas janelas que rodeiam toda sua extensão e grades para impedir o furto dos livros.
            O procedimento padrão é deixar bolas, pastas e qualquer outro item que possa ser suado para roubar livros em um dos armários.
            As chaves ficam penduradas nas portas. Basta escolher o cubículo, trancar e levar a chave. Simples e rápido. Era para ser. Mas não para Ricardo. Ele perambula pelas copiosas fileiras de armários até encontrar um que caiba sua grande mochila. E nessa procura ele não está só. Duas moças, não muito mais jovens do que ele repetem o procedimento. Ele não consegue ver seus rostos. Uma loira, outra morena. Longos cabelos, o cabelo da loira um pouco mais ondulado do que a da morena. Ambas com silhuetas bem delineadas, peles lisas, bundas arrebitadas e redondinhas...
            Ricardo não consegue evitar. Por mais que haja um debate sobre a coisificação do corpo feminino, ele não pode não pensar em outra coisa a não ser estar no meio daquelas quatro pernas torneadas.
            Ambas usam shortes jeans curtos e leves blusas de alças. O calor estar de matar! Ricardo sente o calor do ambiente e o calor de seus instintos. Controla-se, segura, respira fundo, volta o olhar para o chão. Ainda é um homem racional. Por isso pode aproveitar a cena como um evento estético; aprecia as formas dos corpos não só como carne, mas como exemplares da beleza do corpo feminino; como estar diante de duas belas estátuas de marfim. Ele disfarça, mas ao subir as escadas poucos são os ângulos alternativos em que seus olhos não recaiam sobre as ancas das moças. Elas sobem na frente e ele sobre três andares admirando aquelas curvas afrodisíacas.
            Ao chegar no terceiro andar, elas vão para um lado e ele para outro. O torpor hormonal é cortado. “Jamais verei as caras delas”, disse para si mesmo. Não importa, já tinha visto o suficiente.
            ***
            A biblioteca tem um sistema de busca informatizado, um aprimoramento que facilita a vida de estudantes e pesquisadores. O usuário deve inserir o termo que busca – assunto, nome do autor, nome do livro, etc. – no cambo de busca e clicar em uma lupa. Depois de alguns segundos – normalmente é uma questão de segundos – os sistema traz a relação de livros do acervo.
            Ricardo estava cansado da leitura técnica. Havia semanas que se dedicava ao estudo e escrita de artigos. Um dos remédios para sua imaginação era recorrer a literatura. Ficou sabendo de um tal de Jorge Luis Borges, ou algo assim. Um escritor argentino. Ele ficou curioso para saber se o autor era digno da fama.
            Ele empunhou o mouse, arrastou-o até o campo de busca. Deu um clique. Olhou na tela. O campo já estava preenchido. Alguém escreveu lá “orgasmo”, isso mesmo “orgasmo”. A lista sobre o assunto era longa.  “Acho justo procurarem sobre o assunto. Mas, a pessoa que procura por orgasmo em um biblioteca deve estar procurando no lugar errado. Há quem diga que a biblioteca é uma espécie de paraíso, mas não é aqui que ela encontrará o orgasmo. Mais fácil seria ir a um puteiro, né?”, pensou.
            “Orgasmo e sua função fisiológica”, “Prazer, gozo e orgasmo”, “Experiência e prática do orgasmo feminino” foram os títulos listados entre outros. Ricardo sorri.
            “As pessoas levam isso a sério”. Apagou o histórico de busca e inseriu o que procurava. Anotou o número da chamada e partiu.
            Ricardo jamais entendeu aquele sistema de chamada por completo. Certa vez, um grande amigo seu dedicou alguns minutos explicando como funcionava. “Basta achar a estante certa”, falava seu amigo. “Depois você olha esse número aqui, depois desse número vai ter a inicial do sobrenome do autor...”. A única coisa que Ricardo lembrava era “basta achar a estante certa”. Ricardo  aproximava-se da estante enumerada e, por sorte, sempre encontrava o que queria. Hoje não foi diferente. O que significa que a sua maneira, Ricardo aprendeu a encontrar livros na biblioteca.
            A estante indicada era a última da biblioteca. Isso abriu espaço para a distração e para pensar. Ainda achava a ideia de procurar sobre o orgasmo na biblioteca ridícula. No entanto, admitiu que o sistema era honesto, o que se inseria ali poderia ser encontrado.
            Talvez a ideia da outra pessoa não seja tão estupida assim. O que se insere no campo de busca pode ser encontrado na biblioteca, não a coisa em si, mas algo sobre ela.
            Ricardo decidiu procurar por orgasmo na biblioteca também. Voltou ao sistema de busca. Inseriu a palavra, anotou o número de chamada e seguiu em busca do orgasmo na biblioteca, queria tirar  a prova daquela tolice! “Será? Será que encontrarei orgasmo na biblioteca? Isso é ridículo! E como inserir a palavra Deus e esperar que se encontre Deus por aqui! Que pensamento doentio! Mas já que estou aqui, por que não? Foda-se!”
            Como dito anteriormente, Ricardo jamais entendeu como aquele sistema funcionava, mas por intuição – chamemos isso de intuição – sempre achava o que queria.
            Passou por muitas estantes. Virou à esquerda, virou à direita, seguiu reto por mais alguns metros, virou à esquerda novamente, andou um pouco mais, virou à direita. Sentiu-se em um labirinto. Andou por mais alguns metros e ficou diante de uma parte da biblioteca que ele nunca tinha visto , embora acreditasse que conhecia bem a biblioteca. “Essa secção é nova? Devem ter aberto depois da reforma. Por fora a biblioteca não parece tão grande...”
            ***
            Uma moça loira e outra morena, ambas seguravam o mesmo livro. Liam juntas o “Experiência e prática do orgasmo feminino”. Ricardo sorri. Elas não notaram que ele estava ali. Ele teve tempo de contemplar todas as feições das moças. Ambas lindas. Ricardo sabia que sua imaginação não iria enganá-lo. Não pode ver as faces das moças antes, mas aqueles corpos já denunciavam a beleza de seus rostos.
            Elas desviaram o olhar do livro e repousaram suas vistas sob Ricardo. Devolveram o livro a prateleira, o que é contra as regras da biblioteca. Abriram um sorriso largo e malicioso, projetaram um olhar felino em direção a Ricardo e em passos leves se aproximaram do rapaz.

            “Você nos encontrou”, disse a moça morena.

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