16 de out de 2015

POR QUE DEVEMOS CUIDAR BEM DE NOSSOS PROFESSORES? PARA ESCAPARMOS DA BARBÁRIE.






Quando esse tipo de pergunta surge, há de se concordar que algo está errado em nossa sociedade. Se os professores não estão incluídas naquela parcela de nossa sociedade que merece respeito e honrarias, não haverá uma civilização para se celebrar futuramente. Posto que, o professor, em sua função de ensinar está incumbido de transmitir práticas e hábitos que tornem aquilo que chamamos de uma  humanidade menos opressora, menos cruel. Dito isto, gostaria de compartilhar um trecho do texto: “As funções de um professor”, escrito por Bertrand Russell:
            “Quando se observa este cortejo como um todo, sobressaem alguns homens dignos de admiração. Uns foram inspirados pelo amor da humanidade, outros ajudaram-nos com sua superioridade intelectual a compreender o mundo em que vivemos, outros ainda, mercê de uma excepcional sensibilidade, criaram beleza. Esses homens fizeram algo positivamente bom, capaz de ultrapassar a longa lista de crueldade, opressão e superstições. Fizeram tudo o que estava ao seu alcance para transformar a vida humana em algo mais do que uma breve turbulência de selvagens. O homem civilizado é aquele que, quando não pode admirar, aspira mais a compreender do que a reprovar. Nesse sentido, procura descobrir e remover as causas impessoais do mal do que odiar quem se encontra preso nas suas garras. Tudo isso deve fazer parte do espírito e do coração do professor, pois que, se assim for, tudo isso será transmitido durante o ensino aos jovens que estão sob cuidados desse professor.”

E se não cuidarmos de nossos professores, que tipo de futuro nos espera? Há também nesse texto uma visão do que pode acontecer se passarmos por uma situação em que ser professor é uma tarefa de castração de pensamento, Russel nos adverte:
“Mesmo assim, nos países totalitários, espera-se que o professor, ao ensinar essas matérias [tabuada e ler], não utilize métodos que lhe pareçam mais ajustados para alcançar os resultados escolares pretendidos, mas que inculque nos seus alunos medo, subserviência, obediência acrítica, exigindo-lhes uma indiscutível submissão à sua autoridade. E, quando se ultrapassa o nível elementar, então o professor é obrigado a adoptar a perspectiva oficial em todas as questões controversas. É por esta razão que na Alemanha Nazi, e ainda hoje na Rússia, os jovens se transformaram em fanáticos intolerantes, ignorantes relativamente ao mundo exterior ao seu próprio país, totalmente desacostumados de uma discussão livre e incapazes de aceitar que suas opiniões possam ser postas em causa sem que seja por efeito de um espírito malévolo.”
            Por que devemos preservar nossos professores? Simplesmente para que o futuro não seja algo como  aquele desenhado pelo torturador de 1984 de George Orwell:
ão haverá lealdade, exceto lealdade ao Partido. Não haverá amor, exceto amor ao Grande Irmão. Não haverá riso, exceto o riso de vitória sobre o inimigo derrotado. Não haverá nem arte, nem literatura, nem ciência. Quando formos onipotentes, não teremos mais necessidade de ciência. Não haverá mais distinção entre a beleza e a feiúra. Não haverá curiosidade, nem fruição do processo da vida. Todos os prazeres concorrentes serão destruídos. Mas sempre… não te esqueças, Winston… sempre haverá a embriaguez do poder, constantemente crescendo e constantemente se tornando mais sutil. Sempre, a todo momento, haverá o gozo da vitória, a sensação de pisar um inimigo inerme. Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota pisando um rosto humano – para sempre.

[…]

E lembra-te de que é para sempre. O rosto estará sempre ali para ser pisado. O herege, o inimigo da sociedade, ali estará sempre, para ser sempre derrotado e humilhado.

Ps . Há no texto de Russell uma desvinculação entre o saber a política, algo que eu não concordo. Para Russell a ciência é o saber podem ser associados a um tipo de neutralidade para com a política. Poucos são os pensadores que concordariam com isso em nossos dias.
PPs. Aos professores. Façam o favor a si mesmos e a vossa categoria: parem de vincular nossa profissão a algum tipo de vocação sacerdotal. É justamente esse tipo de pensamento que justifica o baixo salário da categoria, já que se considera que o que os professorem fazem é caridade. Sejamos mais francos: há bons professores e professores ruins. Não se pode estabelecer uma relação moral aqui. Ser professor e ser profissional e por isso merece todo o respeito e não porque são enviados por anjos para ministrar aulas!!!

PPPs. Gostaria de expressar minha sincera gratidão a todos os meu professores: formais e informais. 

10 de out de 2015

SUPERMAN - COR. 6:12



1.
Quando criança sempre quis entender o medo. Jamais pude entender porque os meus amigos, meus pais, principalmente meus pais tinham medo. Pelo menos por mim não havia nada que pudesse me machucar. Não havia distâncias que eu não pudesse percorrer. A adaptação foi difícil, mas o hábito sempre ajuda.
Lembro-me do dia em que meu pai precisou da minha ajuda pela primeira vez. Ele sempre foi contra  eu usar meus poderes para ganhos próprios. Sempre me ensinou que aquelas dádivas deveriam se transformar em algo bom para aqueles que estão a minha volta, até porque já havia muitas pessoas se empenhando em destruir o mundo.
Por falar em destruição.
Sempre achei tudo por aqui muito frágil. As pessoas, as construções, as flores. Tudo tão simplesmente frágil. Esse lugar sempre foi pequeno e frágil. Uma grande caixa de papelão. Aprendi, depois de muito tempo que para evitar problemas, eu deveria manter essa fina estrutura inteira. 
Aprendi que há certo equilíbrio. Porém, por ser o que sou, o equilíbrio dessas terras estava trincado, despedaçado. Deveria eu consertá-lo?
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Os tempos de escola foram os mais difíceis. Foi durante esses anos em que as coisas ficaram complicadas para mim. Percebi que poderia levantar um carro com 8 anos de idade. Percebi que poderia correr de um estado a outro em menos de 10 minutos. Percebi que poderia saber se uma pessoa mentia pelo modo como seu coração batia. Aos poucos, meus sentidos eram tão refinados que a percepção da realidade era tão crua que as construções e interações sociais pareciam jogos de crianças. 
“Você é um bosta! Por que você não volta para aquela fazenda de merda dos seus pais? Vai catar bosta de porco!”, tudo isso acompanhado de um cuspe na cara. Até então, o valentão da escola nunca tinha notado sequer minha presença. Enquanto aquela meleca escorria dos meus olhos até a boca contei até dez. Meu pai sempre disse para fazer isso. Ouvi os batimentos acelerados, os olhos deles esbugalhando, seu maxilar se projetando para baixo, seus braços se erguendo e seus pés dando passos em minha direção, 1 - contei. Como ele estava na frente, ele foi o primeiro a executar esses atos, tão pequenos, mas que pude lê-los. Seus colegas o imitaram.2 . Acho que foi a primeira vez que tive dúvida sobre o que fazer. Enquanto pensava no que fazer, eles avançaram mais um passo. Atrás de mim havia apenas o corredor. Naquela época ainda não existia câmeras de vigilância por todos os lados. A presença do adulto mais próximo era a de 100 metros, dentro de uma sala. Era o diretor, ele estava lendo uma revista adulta. Seus batimentos estavam acelerados e o barulho do papel daquele material era bem nítido. Sim, naquela idade eu já sabia o que era pornografia. 3. Para falar a verdade, eu via as pessoas nuas o tempo todo. Era difícil segurar o riso, e em alguns casos conter outras emoções. Exatamente como agora. Os cinco que vinham em minha direção estavam todos nus em minha percepção. Estavam ainda mais nus por expressarem fúria. Sempre achei que os seres humanos eram mais honestos consigo mesmos quando estavam bravos. Não sei se os seres humanos são bons ou maus por natureza, o que posso dizer é que eles são violentos. Assim como eles estão sendo agora. 4. 
“Você tudo pode, mas nem tudo te convém. Estamos agora em uma estação de trens, não é, Clark? Você pode pegar qualquer trem aqui e ir para onde quiser, mas onde você quer chegar? E nisso que tem que pensar quando tiver que tomar alguma decisão, filho. Você pode tudo, especialmente você, mas nem tudo te convém.” Eles estão a menos de dois passos de mim 5.. O catarro já respingou em minha camiseta 6. . Minha mãe pode ficar brava comigo de novo. Ela sempre reclama de como estrago minhas roupas. Ora rasgadas, ora queimadas e agora toda emporcalhada de cuspe e catarro. Tenho que ceder, Ted tem bastante muco em seu organismo. E seu cuspe foi certeiro. 7. 
Um passo. Ainda não decidi o que vou fazer. Outra pessoa se aproxima. Seus passos são mais leves. Seus batimentos cardíacos mais calmos. Sua respiração leve. Deve estar pensando em algo bom. Ela carrega algo em seus braços. Cadernos? Não, os cadernos são um pouco mais pesados do que isso. É um livro. 8.  Pela tensão de seus músculos percebo que é um livro pequeno, leve. Deve ser o livro que devemos ler esse trimestre. Se for, é o livre “Alice nos país das maravilhas”. Engraçado. Li o livro e me identifiquei muito com Alice. A parte em que ela se torna gigante é hilária. Ela poderia esmagar todos os perigos com facilidade. O que ela fez mesmo? Não era um exército de cartas, era? Acho que a rainha queria arrancar a cabeça da garota. O que fez Alice? 
O braço dele se estica, uma mão cerrada, outra na altura da cintura. O ombro deslocado e o tronco inclinado para frente. Certamente alguém tem ido às aulas de boxe. Desse modo pode aproveitar o peso do corpo para poder dar um golpe mais consistente. Isso faria muita diferença em outras ocasiões. Não agora. O que Alice fez mesmo? 9.
Crack!
A mão dele atinge meu peito. Conscientemente dei um passo para frente. Antecipei o impacto. Isso deve doer muito. Imagino. Devido ao posicionamento que assumiu e ao passo e projeção de meu peso o soco acertou em cheio. Isso deveria ser uma coisa boa para o atacante. Mas não nesse caso. Quando digo que antecipei o impacto isso foi o impacto que impingi nele. Sei de minhas potencialidades. Sei da aceleração que posso produzir em meu próprio corpo, e como posso fazer isso bem rápido, bem rápido mesmo. É difícil de explicar para vocês, mas é como se o tempo paresse para vocês e não para mim. Fiz isso em um espaço de um passo. Entre o levantar da sola do pé do chão até o reencontro do pé com o piso novamente. Assim, o impacto quebrou os ossos de sua mão, produzindo um rachado que foi da ponta do esqueleto da mão até a junção entre o osso do braço com o osso de seu ombro. Excruciante. Ninguém deveria passar por isso. Ninguém também deveria ser vítima de bullying. Os músculos, os tendões foram todos comprometidos. 6 meses no hospital. Mais um ano e meio de terapia para poder recuperar os movimentos. Triste. Frágil. Fraco. Certamente Jonathan não apreciará essa conduta. Ao seu modo, ele é um nobre homem. Apesar de sua fixação com a moralidade. Ele deve ser o último homem do mundo.
A estrutura interna de seu braço foi danificada. Não há duvida disso. A pele também não resistiu. O osso, afiado, talvez a única coisa afiada no corpo de Ted, trincou e rascou a pele macia. Ninguém deveria passar por isso, eu sei. Mas ninguém deveria sofrer bullying.  Foi isso que Alice fez? “Você pode tudo, meu filho, mas nem tudo te convém.” Em estado de choque Ted cai no chão. E por falta de alternativa, o catarro na minha face pinga no chão. O sangue jorra. A meleca pinga. 10.
Por estar assustado, o pico de adrenalina sobe. O sangue pulsa ainda mais. Tenho que admitir, não é bonito. 180 bpm, ou mais. Ele vai desmaiar. Sua corda vocal quase rompe. Algo semelhante aos que os seus dentões da mão fizeram ao encostar em mim. Espero que Ted não tenha nenhuma pretensão artística. Até porque mesmo depois de sua recuperação, não acredito que será capaz de ter total controle sobre sua mão. Triste. Fraco. Frágil.
Os outros garotos correm. Passo atrás de passo. Largaram seu líder ali desacordado, quebrado, diante de mim. Em frente a mim pessoas correm de medo, atrás de mim pessoas correm para o socorro. O que fez Alice? Pouco importa. O que vou fazer? Será difícil de explicar isso para alguém. A menina esta para dobrar a esquina dos corredores, em menos de alguns segundos seus olhos poderão ver. Em alguns milésimos de segundos a informação vai chegar ao cérebro dela. Vai demorar um pouco para ela acreditar na cena, o que me dá um pouco de vantagem. É melhor eu partir. E Ted? Ficará aqui? Levo ele à enfermaria? E o sangue? E os ossos trincados?  Ted fica, eu parto. E a garota? Ela merece ver isso? Ninguém merece isso.
Eu deveria consertar isso?
É um mundo simples. Frágil e belo. É um mundo de papelão.
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2.
Anos depois, descobri que Ted morreu só. Seu braço jamais foi o mesmo. A menina que viu Ted largado e com ossos trincados perdeu a sanidade. Ela pensa que tem sempre alguém vigiando ela o tempo todo. Tem certo horror por espelhos. Fui eu quem fiz isso. Fui eu quem fiz isso?
Depois daquele dia, o conselho de meu pai se tornou ainda mais valioso. Essas amarras tem lá suas vantagens para uma vida de paz. Eu queria uma vida de paz. 
Eu queria uma vida de paz.
Mas como disse anteriormente, não sei se os seres humanos são bons ou maus por natureza. A única certeza que tenho é que eles são violentos. E cá estou metido nesse mundo. “Veja essa estação de trem. Você pode pegar qualquer um, mas aonde você quer chegar, meu filho? Aquele trem ali, por exemplo, vai te deixar mais perto ou mais longe do seu destino.” O velho era bom. Tenho que admitir. Tudo posso, mas nem tudo me convém.
Eu queria uma vida de paz. Eu queria. No entanto, isso não é possível quando se pode escutar o mundo todo ao mesmo tempo.
Há muito tempo atrás me peguei vivendo em uma cidade grande. Filtrar minhas potencialidades é uma espécie de exercício do sossego.
Ao deixar que tudo se expanda, que tudo me seja acessível posso, por exemplo, ouvir um grupo de homens armados torturar um cara que lhes deve dinheiro. Devo consertar isso?
Mulheres são agredidas, pessoas são presas, crianças são abusadas. Que lugar doentio! Ignorar tudo isso não soluciona o caso. Saber disso tudo ao mesmo tempo me quebra por dentro.
Eu queria uma vida de paz. 
Invejo os seres humanos às vezes. Eles quando querem esquecer se entorpecem. Por alguma razão, essas coisas não funcionam comigo. Então, eu lembro. Então eu sei. Eu sei e eu lembro o tempo todo.
O tempo todo.
Houve um caso em que eu soube e lembrei por muito tempo.
Acorrentada ela estava. Era apenas uma garota. Seus dentes foram todos arrancados. Seus olhos expulsos do crânio por pancadas. A cadeira em que seu corpo deu o último suspiro estava sujo de merda e mijo. Pude sentir o cheiro de seu medo a muitos quarteirões de distância. Cheguei tarde demais para salvá-la. Eu deveria ter consertado essa!
Fui devagar demais para salvá-la. Fui rápido o suficiente para pegá-la. Não a criança, mas a mulher que fez isso.
Como sou tenho uma sensibilidade maior, também sei onde dói mais. Aquela noite foi longa. Até mesmo para mim.
“Tudo você pode, mas nem tudo te convém.” Velho sábio. Jonathan Kent.
Hoje, tudo será conveniente.
Agarro o pé de cabra. Hoje, tudo será conveniente.