21 de ago de 2015

MILAGRE









MILAGRE
                A vida humana já recebeu muitas fundamentações e justificativas. A maioria das religiões ocidentais nos coloca em relação privilegiada em relação aos outros seres: somos filhos de Deus, somos sua imagem e semelhança de Deus, somos racionais, possuímos alma, etc.
                Com o passar das eras, aquele mamífero, aquele hominídeo que habitava cavernas e tinha que correr mais de 20 quilômetros por dia para garantir seu sustento, começou a produzir arte, técnica e pensamento. Do ponto de vista evolutivo, esse processo foi muito rápido. Muitos dizem que a evolução não dá saltos. Porém, a humanidade que conhecemos hoje, apesar de suas mazelas, transcendeu a disputa pela vida no planeta. Homens e mulheres hoje morrem mais porque uns matam aos outros. Não há predador perseguindo a humanidade. “O homem é lobo do próprio homem”.
               
                Superamos aquilo que para muitos animais é insuperável. Estamos muito além de nossos co-habitantes planetários. Os animais sobrevivem, nós vivemos.
                A ciência, esta pérola de nossas angustias, mostrou que tudo isso não passa de uma contingência muito singular. O nosso planeta para sustentar a vida tal como a conhecemos passou por um longo processo de transformações  e cataclismos. Esses cataclismos, ora de fontes internas, ora de fontes externas foram moldando o terreno para o crescimento da vida. Antes um planeta inóspito, agora um planeta cheio de vida.
                Os humanos, que também são filhos das contingências, não escapam essa lógica. Darwin nos mostrou a incrível semelhança entre nós e os chimpanzés. Não, não somos macacos. Definitivamente não somos macacos. No entanto, o mapeamento genético vem mostrando que compartilhamos cerca de 98% do DNA de nossos primos evolutivos. Ora, veja só leitor, em um universo cheio de galáxias, sistemas solares, planetas e estrelas todos eles tão antigos e tão distantes, longes de nossos sentidos, acessíveis apenas pelo pensamento, apenas 2% nos diferencia entre andar pelados por aí e compor a Nona sinfonia ou escrever A república. O mais idiota de nós é superior ao melhor chimpanzé.
                O milagre é perceber, não de forma religiosa, que tudo o que fizemos de bom, de belo e de justo é proveniente da diferença de 2%. Estamos falando aqui de uma generalidade. Porém se pensarmos no específico, no caso do leitor, por exemplo, a probabilidade de você estar lendo esse texto, a probabilidade de você ser quem você é muito pequena, muito pequena mesma. Pense bem, dentre aqueles milhões de espermatozoides você foi o que conseguiu atingir a vida. Estar vivo, estar aqui, ter saúde etc é um privilégio. É um milagre. É na verdade, o mais puro acaso. Nós é que temos a teimosia de dar significado a essas coisas todas. Não passamos de tripulantes de um pálido ponto azul.