23 de jan de 2015

Síndrome de Virchow

O professor de Filosofia, João Carlos Sales, em um artigo intitulado os "Livros e a Noite" apresenta a situação da produção de Filosofia no Brasil e os principais desafios que os profissionais da Filosofia devem enfrentar, caso queiram elevar a importância do estudo filosófico no Brasil.

No artigo, o professor comenta que em dia como os nossos a produção filosófica não deve temer em avançar e, ainda, o profissional de filosofia (professor ou pesquisador) não poderá se acovardar perante a má qualidade das produções filosóficas.

Para exemplificar o tipo de atitude que deve ser evitada, João traz à o tona a anedota da "Síndrome de Virchow".  Como eu não conhecia a tal da síndrome, pesquisei para tomar conhecimento e posto aqui no blog:

"No final do século passado, em Berlim, estudava medicina o príncipe Chakradhipok, irmão mais novo do rei do Sião (hoje, Tailândia). O príncipe não demonstrava talento algum para esse ou qualquer outro estudo, mas queria, a todo custo, ao menos ser aprovado no Physikum, o primeiro exame do curso. O examinador seria o renomado Professor Rudolph Virchow, criador da patologia celular e célebre, entre outros motivos, pelo rigor com que argüia os candidatos em exames de medicina. Virchow nada tinha de condescendente. Tampouco se curvava ante qualquer pressão, sendo um corajoso opositor do próprio Bismarck. Nesse caso, porém, o temido Virchow parece ter feito vistas grossas. No exame, perguntou ao príncipe apenas quais seriam os órgãos pares que, nos homens, secretariam a urina. Mesmo assim, o príncipe respondeu:

– A figado.

– Bem, bem – disse Virchow, como a refletir em voz alta -, na verdade não é figado, e sim fígado. Não é a figado, mas o fígado. Além disso, não é o fígado, mas os rins. De resto, porém, sua resposta está absolutamente correta.

E, para surpresa geral, aprovou o candidato! É claro que todos quiseram saber de Virchow qual a motivação inusitada para tamanha condescendência.

– Ora – explicou Virchow, antes da prova o príncipe jurou que jamais praticaria a medicina na Alemanha.

(Salles dá como fonte da história o livro de Curt Seibert, Das Anekdotenbuch, p. 29-30)

Encontrei o conto na página Filosofia e currículo escolar

22 de jan de 2015

Curso Superior - Contos Negreiros por Marcelino Freire

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Para os devidos fins, esclareço que a cópia deste conto tem o objetivo simples de divulgar uma ideia que não é minha e que me fez pensar bastante. Compartilho para que outros também sintam o sabor desta reflexão.

"O meu medo é entrar na faculdade e tirar zero eu que nunca fui bom de matemática fraco no inglês eu que nunca gostei de química e geografia e português eu que faço hein mãe não sei.

O meu medo é o preconceito e o professor ficar perguntando o tempo inteiro  por que eu não passei  que eu não passei por que eu não passei  por que fiquei olhando aquela loira gostosa o que é que eu faço se ela me der bola hein mãe não sei.

O meu medo é a loira gostosa ficar grávida e eu não sei como a senhora vai receber a loira gostosa lá em casa se a senhora um dia disse que eu devia bem olhar minha cara antes de chegar aqui com uma namorada hein mãe não sei.

O meu medo também é o pai da loira gostosa e da mãe da loira gostosa e do irmão da loira gostosa  no dia em que a loira gostosa me apresentar para a família como homem da sua vida será que é verdade será que isso é felicidade hein mãe não sei.

O meu medo é a situação pirar e eu não conseguir arranjar emprego nem de faxineiro nem de porteiro nem de ajudante de pedreiro e o pessoal dizer que o governo já fez o que pôde o que fez já deu a sua cota de participação hein mão não sei.

O meu medo é que mesmo com diploma debaixo do braço andando por aí desiludido e desempregado o policial me olha de cara feia e acabe fazendo burrice se lá uma besteira será que vou ter direito a uma cela especial hein mãe não sei."

p.97-98

13 de jan de 2015

Merda como problemática teológica




     "A insustentável leveza do ser" é obra do romancista tcheco Milan Kundera. A obra trata basicamente das desventuras existenciais de quatro personagens: Tomas, Franz, Tereza e Sabrina, além da cadela de estimação de Tereza, Karenin.

  O romance é divido em 7 partes, cada parte oferece uma breve, porém, profunda reflexão filosófica que norteará os acontecimentos daquela parte, todas elas são excelentes e tocam em muita áreas espinhosas da filosofia, estética, música clássica dentre outros temas. A sexta parte porém apresenta uma reflexão que chama muito atenção.

   Impregnada por um tom imaginativo fértil, até mesmo infantil, a sexta parte é aberta com uma reflexão pessoal do autor sobre a relação entre Deus e a merda, entre a semelhança, ou dessemelhança entre homens e deus.  Assim ela começa:

"Quando era garoto e folheava o Antigo Testamento para crianças, ilustrado com gravuras de Gustave Doré, via nele o Bom Deus em cima de uma nuvem. Era um velho senhor, tinha olhos, um nariz, uma longa barba, e eu dizia mim mesmo que, como tinha boca, devia comer. Se comia, devia ter intestinos. Mas essa ideia logo me assustava, porque, apesar de pertencer a uma família católica, sentia o que havia de sacrilégio nessa ideia dos intestinos do Bom Deus.
Sem o menor preparo teológico, a criança que eu era naquela époxa compreendia espontaneamente que existe uma incompatibilidade entre a merda e Deus, e, por dedução, percebia a fragilidade da tese fundamental da antropologia cristã, segundo a qual o homem foi criado á imagem e semelhança de Deus. Das duas um: ou o homem foi criado a imagem e semelhança de Deus - e então Deus tem intestinos -, ou Deus não tem intestinos e o homem não se parece com ele.
Os antigos gnósticos pensavam tão claro como eu aos cinco anos. Para resolver esse maldito problema, Valentino, Grão-Mestre do século II, afirmava que Jesus "comia, bebia, mas não defecava".
A merda é um problema teológico mais penoso que o mal. Deus dá liberdade ao homem e podemos admitir que ele não seja o responsável pelos crimes da humanidade. Mas a responsabilidade pela merda cabe inteiramente áquele que criou o homem, somente a ele". (negritos nossos)





Exemplo de arte de Gustave Doré




















Aula de Inglês

Post de hoje é uma pequena homenagem ao cronista mais famoso do Espírito Santo. Está atrasado em um dia, é verdade, mas esta crônica expressa muito do que o "drama" de aprender um novo idioma.








Aula de Inglês
Rubem Braga

—  Is this an elephant?

Minha tendência imediata foi responder que não; mas a gente não deve se deixar levar pelo primeiro impulso. Um rápido olhar que lancei à professora bastou para ver que ela falava com seriedade, e tinha o ar de quem propõe um grave problema. Em vista disso, examinei com a maior atenção o objeto que ela me apresentava.

Não tinha nenhuma tromba visível, de onde uma pessoa leviana poderia concluir às pressas que não se tratava de um elefante. Mas se tirarmos a tromba a um elefante, nem por isso deixa ele de ser um elefante; mesmo que morra em conseqüência da brutal operação, continua a ser um elefante; continua, pois um elefante morto é, em princípio, tão elefante como qualquer outro. Refletindo nisso, lembrei-me de averiguar se aquilo tinha quatro patas, quatro grossas patas, como costumam ter os elefantes. Não tinha. Tampouco consegui descobrir o pequeno rabo que caracteriza o grande animal e que, às vezes, como já notei em um circo, ele costuma abanar com uma graça infantil.

Terminadas as minhas observações, voltei-me para a professora e disse convincentemente:

—  No, it's not!

Ela soltou um pequeno suspiro, satisfeita: a demora de minha resposta a havia deixado apreensiva. Imediatamente perguntou:

—  Is it a book?

Sorri da pergunta: tenho vivido uma parte de minha vida no meio de livros, conheço livros, lido com livros, sou capaz de distinguir um livro a primeira vista no meio de quaisquer outros objetos, sejam eles garrafas, tijolos ou cerejas maduras — sejam quais forem. Aquilo não era um livro, e mesmo supondo que houvesse livros encadernados em louça, aquilo não seria um deles: não parecia de modo algum um livro. Minha resposta demorou no máximo dois segundos:

—  No, it's not!

Tive o prazer de vê-la novamente satisfeita — mas só por alguns segundos. Aquela mulher era um desses espíritos insaciáveis que estão sempre a se propor questões, e se debruçam com uma curiosidade aflita sobre a natureza das coisas.

—  Is it a handkerchief?

Fiquei muito perturbado com essa pergunta. Para dizer a verdade, não sabia o que poderia ser um handkerchief; talvez fosse hipoteca... Não, hipoteca não. Por que haveria de ser hipoteca? Handkerchief! Era uma palavra sem a menor sombra de dúvida antipática; talvez fosse chefe de serviço ou relógio de pulso ou ainda, e muito provavelmente, enxaqueca. Fosse como fosse, respondi impávido:

—  No, it's not!

Minhas palavras soaram alto, com certa violência, pois me repugnava admitir que aquilo ou qualquer outra coisa nos meus arredores pudesse ser um handkerchief.

Ela então voltou a fazer uma pergunta. Desta vez, porém, a pergunta foi precedida de um certo olhar em que havia uma luz de malícia, uma espécie de insinuação, um longínquo toque de desafio. Sua voz era mais lenta que das outras vezes; não sou completamente ignorante em psicologia feminina, e antes dela abrir a boca eu já tinha a certeza de que se tratava de uma palavra decisiva.

—  Is it an ash-tray?

Uma grande alegria me inundou a alma. Em primeiro lugar porque eu sei o que é um ash-tray: um ash-tray é um cinzeiro. Em segundo lugar porque, fitando o objeto que ela me apresentava, notei uma extraordinária semelhança entre ele e um ash-tray.  Era um objeto de louça de forma oval, com cerca de 13 centímetros de comprimento.

As bordas eram da altura aproximada de um centímetro, e nelas havia reentrâncias curvas — duas ou três — na parte superior. Na depressão central, uma espécie de bacia delimitada por essas bordas, havia um pequeno pedaço de cigarro fumado (uma bagana) e, aqui e ali, cinzas esparsas, além de um palito de fósforos já riscado. Respondi:

—  Yes!

O que sucedeu então foi indescritível. A boa senhora teve o rosto completamente iluminado por onda de alegria; os olhos brilhavam — vitória! vitória! — e um largo sorriso desabrochou rapidamente nos lábios havia pouco franzidos pela meditação triste e inquieta.  Ergueu-se um pouco da cadeira e não se pôde impedir de estender o braço e me bater no ombro, ao mesmo tempo que exclamava, muito excitada:

—  Very well!  Very well!

Sou um homem de natural tímido, e ainda mais no lidar com mulheres. A efusão com que ela festejava minha vitória me perturbou; tive um susto, senti vergonha e muito orgulho.

Retirei-me imensamente satisfeito daquela primeira aula; andei na rua com passo firme e ao ver, na vitrine de uma loja,alguns belos cachimbos ingleses, tive mesmo a tentação de comprar um. Certamente teria entabulado uma longa conversação com o embaixador britânico, se o encontrasse naquele momento. Eu tiraria o cachimbo da boca e lhe diria:

--  It's not an ash-tray!

E ele na certa ficaria muito satisfeito por ver que eu sabia falar inglês, pois deve ser sempre agradável a um embaixador ver que sua língua natal começa a ser versada pelas pessoas de boa-fé do país junto a cujo governo é acreditado.
Maio, 1945

A crônica acima foi extraída do livro "Um pé de milho", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1964, pág. 33.
Saiba tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".

Fonte: 
http://www.releituras.com/rubembraga_aula.asp