17 de nov de 2014

Robson Crusoe: Adão/Caim Moderno











A história de Adão é conhecida no Ocidente. Trata-se da metáfora da criação do homem, segundo os princípios bíblicos, os seus dias no paraíso ao lado de Deus-pai criador e expulsão do paraíso; sendo a expulsão consequência da desobediência, e daí em diante o surgimento da frágil condição humana:



E disse o Senhor Deus à mulher: Por que fizeste isto? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi.
¶ Então o Senhor Deus disse à serpente: Porquanto fizeste isto, maldita serás mais que toda a fera, e mais que todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida.
E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.
¶ E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.
¶ E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.
Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo.
No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás.






A história de Robson Crusoé também é amplamente conhecida no ocidente. A princípio, a história é vista como a narrativa da sobrevivência  do homem perante a natureza. Porém, algumas partes da história revelam que a história de Robson assemelha-se muito a narrativa de Adão.

O primeiro capítulo é similar à situação de Adão. Robson vivia  em situação confortável, porém por falta de algo melhor para fazer resolve se aventurar nas cruzadas marítimas. Dafoe nos conta: 

"Um dia, chamou-me [o pai de Robson] ao seu quarto, porque acamado, e me falou, mais quente e seriamente, das minhas frioleiras, inquirindo-me sobre a razão de meu desejo de deixar a casa paterna, onde tudo tinha para enriquecer, graças à minha aplicação, podendo levar vida agradável e tranquila. Exortou-me, para que não cometesse loucuras, coisa de desmiolados, apontando-me, muito candentemente, as lágrimas vertidas por minha mãe. Para que sair doidamente pelo mundo, a lutar pelo ganha pão, quando tudo vinha sendo por mim, para me garantir profissão honesta, suave e honrosa? Passou depois, a advertir-me de que por mim não mais se responsabilizaria, se por ventura algo errado viesse a fazer, depois de suas palavras. Resumindo, falou-me ele tão sabiamente, tão senhor de si e tão verdadeiramente, com tanto ardor, que, ao terminar, corriam-lhe dos olhos as lágrimas abundantemente, principalmente quando se referiu à morte de meu irmão.

Um dia - disse-me, - de olhos marejados, tu te arrependerás, e, então, hás de ver, não terás ninguém que te console. Estarás sozinho.

A fala do pai de Crosué é tão profética quanto as maldições de Deus sobre Adão. Após passar por várias desventuras, encontra-se só em uma ilha hostil e com poucos provimentos, a morte sempre presente, seja na forma de fome, sede, ou de ser morto por algum animal feroz. Robson nos relata:

"Minha situação era terrível. Esfomeado, que comeria? Sem armas, como defender-me de animais ferozes, que, por certo, aquelas plagas abrigariam, tão selvagens se apresentavam? Apenas uma faca me viera presa à cinta. A bem dizer, o que possuía, era um pouco de fumo, que trouxera numa caixa".

Eis aí a gênese do Adão moderno. Largado à própria sorte, com poucos recursos, em um ambiente hostil, o homem moderno europeu deve sobreviver à natureza e subjugar o meio e os nativos, considerado inferior e sempre uma ameaça potencial.