31 de ago de 2014

Os Sonacirema

A cultura dos Sonacirema se caracteriza por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que se beneficiou de um habitat natural muito rico. Muito ocupados com a economia, depreendem muito tempo com ocupação de rituais. O corpo humano é o principal foco de atenção dos rituais.
Acreditam que é débil, feio e doente e por isso todo grupo tem em suas casas os santuários para suas cerimônias. Os mais ricos tem diversos deles, aliás, sua condição é avaliada pela quantidade de santuários que possui em sua casa. Os menos favorecidos têm apenas um e se espelham nos ricos na construção dos santuários, cobrindo-os de pedras e cerâmicas.
As cerimônias ocorridas são secretas e privadas e somente com às crianças se discute esses mistérios, porque são iniciantes.
Umacaixa embutida na parede guarda poções mágicas e inúmeros feitiços, sem os quais, nenhum nativo acredita poder viver.
Os feitiços são obtidos de curandeiros, os quais escrevem com linguagem antiga e secreta as poções curativas que são levadas aos herbários e curandeiros que fornecem o feitiço desejado, cada qual recebendo substanciais presentes. Os feitiços são utilizados na medida de seu propósito e depois são guardados na caixa mágica que esta sempre cheia, são tantos que as pessoas esquecem sua utilidade.
Embaixo da caixa sagrada existe a fonte de águas sagradas, que os sacerdotes mantêm ritualmente puro, através de cerimônias no Templo das Águas.
Os homens-da-boca-sagrada estão abaixo dos curandeiros, e os sonacirema acreditam que o cuidado da boca tem uma influência sobrenatural nas relações sociais e uma forte relação entre características orais e morais. O corpo e a boca fazem parte do ritual cotidiano, rito que repugna o estrangeiro, pois o uso de um pequeno feixe de cerdas de porco na boca, que movimenta pós mágicos com gestos iguais e continuados.
O homem-da-boca-sagrada recebe a visita dos sonacirema duas ou mais vezes por ano. Esses possuem uma variedade de objetos usados no exorcismo dos perigos da boca, alargam buracos e lá depositam pós-mágicos, mesmo que os dentes deteriorem os nativos continuam retornando. As personalidades destes nativos mostram uma tendência masoquista definida, pois o homem-da-boca-sagrada enfia a agulha no nervo enquanto seus olhos brilham sadicamente. Essa tendência fica evidente quando no ritual diário envolve uma arranhadura e laceração no rosto com um instrumento cortante. Ritos femininos também são masoquistas, quatro vezes por mês lunar, as mulheres enfiam suas cabeças em fornos durante uma hora.
A imponência do templo Latipsoh recebe pacientes doentes para tratamento e as cerimônias ai realizadas, envolvem um grupo de vestais com roupa e penteados distintos, além do taumaturgo. Existe uma certa violência nas cerimônias, pouco conseguem curar-se. Crianças não gostam de submeter-se à doutrinação e resistem. Os guardiões não admitem o cliente que não possa dar um presente ao zelador, mesmo após sobreviver às cerimônias, não se permite a saída até que outro presente seja dado.
Os sonacirema não expõem o corpo e suas funções, como banho e excreções, e ao entrar para as cerimônias sofrem um choque psicológico por não estar na intimidade doméstica. Um homem nunca exposto no ato excretório, nem sua mulher, de repente, encontram-se nus diante de uma vestal desconhecida, enquanto executa suas funções no vaso sagrado. Essas excreções são utilizadas por um adivinho para diagnosticar a doença, enquanto as clientes são apalpadas e manipuladas pelos curandeiros.
Além de ficarem quietos em suas camas duras, os pacientes recebem de madrugada a visita de vestais que os acordam e fazem uma série de exames, enfiando varas em suas bocas além de atirarem agulhas magicamente tratadas em sua carne.
O feiticeiro chamado de Escutador exorciza demônios em pessoas que foram enfeitiçadas. Os sonacirema expõem ao Escutador todos os seus medos e problemas, pois acreditam que os pais fazem feitiçaria contra os filhos.
A estética nativa é aversa ao corpo e as funções naturais. Fazem rituais de jejum para fazerem gordos ficarem magros, banqueteiam os magros para os engordarem, rituais para fazerem seios das mulheres crescerem, ou diminuírem se são grandes. Aliás, essas de desenvolvimento hiper-mamário são idolatradas e podem viver de aldeia em aldeia exibindo-os em troca de uma taxa.
As funções sexuais são distorcidas, tabu como conversa, são muitos esforços feitos para evitar a gravidez, materiais mágicos e fases da lua. A concepção é pouco freqüente e, quando grávidas, as mulheres se vestem a ocultar o seu estado. O parto é em segredo, a maioria das mulheres não amamenta e nem cuida dos bebes.
Essa vida cheia de rituais mostra a dificuldade de compreender como os Sonacirema conseguiram sobreviver com os pesados fardos que lhes impuseram.
Agora que você leu tudo, leia ao contrário a palavra... Sonacirema. "nós, Sonamuh", também temos as mesmas práticas, mas não entendemos a verdade simplesmente pelo nosso preconceito e por despreparo mental em analisar as coisas sob outros pontos de vista, que não o do nosso ego.


25 de ago de 2014

DISCIPLINA











Os dicionários têm suas próprias definições de disciplina. Todas elas nos fazem lembrar de regularidade. Fazem-nos lembrar da formalidade, fazem-nos lembrar de escola. Isto é importante. É importante marcar um significado comum para que, parcamente, as pessoas estabeleçam comunicação razoável. Seria trágico termos de voltar ao nível das cavernas e convencionar tudo novamente. Ou voltarmos ao tempo mítico da torre de Babel e reaprender a comunicarmos uns com os outros. Ou ainda pior, cairmos, analogamente, naquela procura terrível de Averróis sobre o significado de “comédia” e “tragédia”, como denuncia o escritor argentino. Para além das convenções saudáveis de uma vida em comunidade, há o fato de as pessoas inventarem significados para as palavras já inventadas, consequentemente, já significadas.
Ao entrar na sala de aula um jovem professor expressa seu mantra interno: “Disciplina: a arte de fazer aquilo que tem de ser feito, mesmo que você não tenha nenhuma vontade de fazer aquilo que tem de ser feito.” Respira fundo e começa suas atividades cotidianas. Lembra que a diferença entre meninos e homens está no fato de “os homens fazer aquilo que tem de ser feito e os meninos só fazem o que querem”.
                                                        
Dos poucos resquícios de ritualização que sobraram parece que a “dádiva” de ser uma pessoa disciplina, de acordo com a definição acima estabelecida, é uma marca de iniciação ao mundo adulto. Porém, é arriscado dizer, e com certa probabilidade de estar certo, que o jovem índio não está nem um pouco entusiasmado em colocar seu braço dentro de um formigueiro para provar que pertence ao grupo: “a arte de fazer aquilo que tem de ser feito, mesmo que você não tenha nenhuma vontade de fazer aquilo que tem de ser feito.”.

A disciplina não é toda má. Convenhamos, ela imprime, de acordo com o que foi abordado, o reconhecimento nos indivíduos. Daí que um homem disciplinado é aquele que já passou pelo processo de suprimir sua vontade e está adequadamente inserido dentro de um contexto. Já está enraizado. Já está catalogado, já sabe qual é o seu devido lugar e, certamente, este tipo de individuação perante o coletivo é raramente alcançado, somente os humanos disciplinados conseguem atingir tal nível.

Esse significado de “disciplina” não está catalogado em dicionários. O que faz pouco importar se o que está escrito nestes parágrafos é certo ou errado. O reconhecimento e a validade epistemológica pouco importam se os mantras são efetivos. 

24 de ago de 2014

JORGE LUIS BORGES FAZ AUTO-RETRATO DEPOIS DE TORNA-SE CEGO

Jorge Luis Borges (1899-1986), um dos grandes escritores para sair da Argentina, ficou cego quando tinha apenas 55 anos de idade. Tão inquietante como deve ter sido, não era particularmente uma surpresa. Certa vez, ele disse ao jornal The New York Times, "Eu sabia que iria ficar cego, porque o meu pai, a minha avó paterna, meu bisavô, todos tinham ficado cego." Nos anos seguintes a esse momento de marcante de sua vida, Borges nunca aprendeu braille e já não podia ler. Mas ele cotinuou a escrever; atuou como diretor de Biblioteca Nacional da Argentina; viajou e fez uma importante série de palestras na Universidade de Harvard sobre a poesia (clique para ouvir); e ele mesmo se aventurou em desenhos - algo que ele fez muito bem cedo na vida. (Veja o nosso post anterior: dois desenhos de Jorge Luis Borges Ilustre obsessões do autor.) Acima, você pode ver um auto-retrato que Borges chamou na cave do famoso Strand Bookstore em Nova York. De acordo com o Times, ele fez isso ", usando um dedo para guiar a caneta que estava segurando com a outra mão." Depois de fazer o esboço, Borges entrou na parte principal da livraria e começou a "ouvir a sala, as pilhas, o livros ", e fez a observação notável" Vocês têm a mesma quantidade de livros que temos em nossa biblioteca nacional. Se você já esteve em The Strand, você sabe quantos livros a livraria tem. Na verdade, a loja se orgulha de ser lendária casa de 18 milhas de livros novos, usados e raros." Meu palpite é que a Biblioteca Nacional da Argentina pode ter mais alguns volumes do que isso. Mas quem realmente está contando?



SOBRE SOCIABILIDADE

Em uma de suas passagens mais célebres Schopenhauer escreve um pedaço de sabedoria que muitos filósofos queriam ter escrito:






"Todos são Sociáveis — na medida em que são Intelectualmente pobres, hipócritas e vulgares

Na solidão, onde todos se veem limitados aos seus próprios recursos, o indivíduo enxerga o que tem em si mesmo. O tolo em trajes finos suspira sob o fardo de sua própria individualidade miserável, da qual não pode se livrar, enquanto o homem de grandes dotes povoa e anima com seus pensamentos a região mais deserta e desolada. Há, pois, muita verdade no que Sêneca diz: "toda estultice sofre o fastio de si mesma. (Epistulae, 9)", e também na sentença de Jesus de Sirach, A vida de um tolo é pior que a morte. Logo, em geral, constataremos que todos são sociáveis na medida em que são intelectualmente pobres, hipócritas e vulgares. Pois, neste mundo, temos pouca escolha entre a solidão e a vulgaridade."


Arthur Schopenhauer, in Aforismas Para a Sabedoria de Vida.


Aproveite para conhecer a página de Shopenhauer no facebook, e seja agraciado com os pensamento do filósofo diariamente:

https://www.facebook.com/pages/Arthur-Schopenhauer/589409147746227

18 de ago de 2014

Os Problemas da Filosofia – Bertrand Russell

problemasfilOs Problemas da Filosofia
Autor: Bertrand Russell
Tradução, introdução e notas: Desidério Murcho
Lisboa e São Paulo: Edições 70, 2008, 232 pp.
__________
Bertrand Russell (1872-1970) foi um dos filósofos, lógicos e ativistas mais influentes do século passado. Como filósofo, foi o responsável, juntamente com G. E. Moore (1873-1958), pelo abandono do idealismo hegeliano nas ilhas britânicas, introduzindo a chamada “filosofia analítica”. Como lógico, foi responsável, juntamente com Alfred North Whitehead (1861-1947) e Gottlob Frege (1848-1925), por desenvolvimentos cruciais na lógica clássica, que tinha estagnado durante 25 séculos, dando assim origem indiretamente a todas as lógicas formais contemporâneas. E, como ativista, teve uma forte influência na vida política, social e cultural do seu tempo, intervindo em inúmeras ações cívicas e debates de ideias — o que lhe valeu a interdição de dar aulas no City College de Nova York e duas sentenças de prisão, uma das quais aos 89 anos, mas também o prêmio Nobel de Literatura em 1950.
Russell publicou cerca de 2 mil artigos e mais de 70 livros, numa prosa geralmente clara e lúcida. Os Problemas da Filosofia está entre os seus livros mais lidos, e desde que foi publicado, em 1912, nunca deixou de ser reeditado. Trata-se de uma lúcida introdução à filosofia, com 4 características importantes.
  1. Russell dá ao leitor a experiência do que é fazer filosofia: enfrentar problemas, avançar teorias ou teses, fundamentá-las cuidadosamente com argumentos sólidos e imaginativos, esclarecer conceitos. Ao estudar esta obra atentamente, aprende-se a filosofar. Russell não se coloca num pedestal, restando ao leitor apenas a tarefa formalista de interpretar o significado de um texto de sabor arcaico. Nesta obra, o leitor é constantemente convidado a pensar por si em alguns dos problemas centrais da filosofia.
  2. Russell mostra que no centro da atividade filosófica está a crítica: a filosofia, como se diz por vezes de forma algo pomposa, é “o lugar crítico da razão”. Sem pedantismos, Russell avalia criticamente não apenas os problemas da filosofia, mas também as ideias defendidas por filósofos como George Berkeley (1685-1753), Immanuel Kant (1724-1804) e Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831). Mostra assim que fazer filosofia não é meramente interpretar e compreender os filósofos. Pelo contrário, é avaliar criticamente as suas ideias, e eventualmente procurar refutá-las, se tivermos boas razões para pensar que são falsas.
  3. Russell não se limita a fazer um inventário algo impessoal dos problemas, teorias e argumentos centrais da filosofia. Em vez disso, apresenta e defende as suas próprias ideias sobre diversos aspectos centrais da filosofia, de tal modo que este livro pode ser lido de duas maneiras diferentes: como uma introdução ativa à filosofia, mas também como uma obra de autor, relativamente sofisticada. Efetivamente, por detrás da aparente simplicidade de muitos parágrafos e capítulos desta obra estão ideias e argumentos sofisticados e substanciais que são parte integrante do pensamento filosófico de Russell, desenvolvido noutras obras e artigos de carácter avançado.
  4. Russell fornece vários instrumentos conceituais centrais para fazer filosofia. Isto significa que o leitor pode discordar de todas as teses substanciais defendidas por Russell, mas mesmo assim muito ganhar com o estudo atento deste livro.

Índice da obra

  • Introdução
  • Prefácios
  1. Aparência e realidade
  2. A existência da matéria
  3. A natureza da matéria
  4. Idealismo
  5. Conhecimento por contacto e conhecimento por descrição
  6. Sobre a indução
  7. O nosso conhecimento de princípios gerais
  8. Como o conhecimento a priori é possível
  9. O mundo dos universais
  10. O nosso conhecimento dos universais
  11. Sobre o conhecimento intuitivo
  12. Verdade e falsidade
  13. Conhecimento, erro e opinião provável
  14. Os limites do conhecimento filosófico
  15. O valor da filosofia
  • Nota bibliográfica
  • Índice analítico
Fonte: Crítica.

17 de ago de 2014

Ah, a acadêmia... uma conversa informal entre professores




Professor 1: "... então eu passei um trabalho para os alunos. Coisa simples, até disse o tema para eles."

Professor 2: E então?"

Professor 1: "Então que pego vários trabalhos iguais. Você acredita nisso? "

Professor 2:  " Não vejo problema nisso."

Professor 1: "Como assim não vê problema nisso?"

Professor 2: "Ora, você planeja a mesma aula para 40 alunos e se irrita quando dois ou mais alunos entregam dois trabalhos idênticos?"

Professor 1: "É claro! Isso é crime! Plágio é crime!"

Professor 2: "Concordo! Mas veja, os alunos estão fazendo exatamente aquilo que ensinamos, indiretamente falando.


Professor 1: "Do que você está falando?!!! Meu colega, você está do lado destes meninos! É por isso que o país não vai pra frente! Você não respeita as regras, é por isso que a escola é essa bagunça!"

Professor 2: " Meu caro, todos os dias ensinamos aos nossos alunos que originalidade não é o foco do sistema de ensino. As provas são estandardizadas, os índices medem um aluno fora de sua história, o ensino é voltado para uma plateia sem raízes... A planificação da experiência pedagógica é posta em prática todos os dias e você com essa raiva toda porque os alunos estão fazendo justamente aquilo que eles são ensinados a fazer todos os dias?"

Professor 1: "Mas não ensinamos isso. Que matéria que ensina isso? Só se for nas suas aulas de filosofia! "

Professor 2: "Desculpe-me meu caro, mas acho que a sua concepção de ensino parece rasa. Ensinar não é somente aquilo que se passa no lousa ou exercício que passamos para o aluno, ou o texto que lemos, enfim, quando agimos também ensinamos."

Professor 1: "Acho que você anda lendo muito Paulo Freire! Vocês e esses comunistas! Seria tão bom se pudéssemos ensinar como eles, mas na realidade essas coisas não funcionam. Além do mais, você fala essas coisas porque é o seu primeiro ano como professor nas escolas públicos, logo, logo, você mudará de ideia."

Professor 2: "..."


Professor 1: "Além do mais, esse tipo de coisa não cai no Enem, nem na prova Brasil e não coloca ninguém dentro da universidade. É muita falação para pouca ação! Devemos procurar soluções e não ficar permitindo que nossos alunos copiem trabalhos iguais só para passar de ano."

Professor 2: "..."


Fim de conversa.







6 de ago de 2014

FALHA NO SISTEMA QUE GEROU OPORTUNIDADE ÚNICA PARA A FILOSOFIA

Em uma conversa de rádio, a """"""filósofa""""" e """educadora""" Viviane Mosé alertou os pais ouvintes da CBN sobre a possibilidade e o perigo de um professor de Filosofia adotar os filhos dos ouvintes. O comentário é infeliz em muitos aspectos, mas vou frisar dois:

1. O total desconhecimento da realidade educativa das escolas brasileiras. A disciplina Filosofia possui poucas aulas por semana, o que obriga o sistema educacional a "dar" muitas turmas para os professores. Um professor de filosofia possui em média 400 alunos. Portanto, adotar os  estudantes seria um loucura, dado que teríamos a responsabilidade parental de 400 pessoas, no mínimo. Para falar a verdade, é difícil dos professores lembrarem o nomes de seus alunos. 

2. A comparação implícita que a radialista fez foi a de comparar os filósofos com os traficantes de entorpecentes . O lema "adote seu filho antes que o traficante o faça" foi usado durante uma campanha,em vários estados, na guerra contras as drogas [nem vou entrar no mérito da discussão sobre este tema, que é complexo]. Para quem não lembra da campanha:



Apelo às emoções à parte, o fato é que ela representa uma parcela da população que teme o ensino de Filosofia. Mas oras, se a Filosofia, segundo o preconceito espalhado Brasil afora, não serve para nada, por que tanto medo? O pior de tudo porque uma pessoa que se intitula """filósofa""" teme tanto o ensino daquilo que ela mesma ensina? Que contradição terrível!

Pensando sobre o assunto, cheguei a uma conclusão esperançosa para os bons professores de Filosofia.

Historicamente falando, a Filosofia sempre foi escorraçada da escola, no Brasil, depois de um decreto de 1971, a Filosofia estava oficialmente fora das escolas. Durante as décadas seguintes houve um debate sobre a importância da disciplina para a formação de cidadãos conscientes e de pensamento crítico. No entanto, ela voltaria apenas como transversalidade, ou seja, não seria de fato uma disciplina. Nos anos 1990, principalmente após a aprovação da LDB de 1996, o retorno da filosofia seria tímido. Aparecia como matéria opcional, e por ser opcional, nem todas as escolas ofertavam a disciplina. Em 2008, finalmente, a disciplina ganha aparato constitucional para voltar às escolas de mãos dadas com a disciplina de Sociologia. No entanto, isso não foi o suficiente. [Para saber mais, visite http://docenciaemfilosofia.blogspot.com.br/2014/07/prologo.html ]

O retorno da disciplina ocorreu de forma obrigatória, fato, mas o modo como retornou foi programado não ofereceu condições de trabalho decente aos professores. Sem falar no fato de que, na maioria dos casos, os professores que assumiam as aulas de Filosofia estavam muito longe de qualquer formação mínima em Filosofia, ou seja, o despreparo era ubíquio! Aulas mal planejadas, despreparo didático, falta de conhecimento filósofico etc. Isso contribuiu para crescimento preconceituoso de que a Filosofia era uma aula "vaga".

Os aspectos negativos são os mais fáceis de enxergar. No entanto, a tentativa de sufocar a Filosofia por meios torpes, na verdade possibilita a potencialização de seu alcance em nossa sociedade. O problema está, às vezes, na figura do professor. Por que dizer isso? Ora a realidade em sala de aula não é muito fácil. Segundo Gustavo Reis, em uma aula "nos primeiros cinco minutos as pessoas estão agregando sua atenção. Metade da aula transcorrida APENAS 1 DE 4 ALUNOS AINDA ESTÁ PRESTANDO ATENÇÃO." O educador Gustavo Reis ainda trás outros dados importantes sobre a atenção no ambiente da sala de aula em sua palestra:  [a partir dos 3:20 do vídeo]


Assim, se o preparo da aulas forem ruins, esses números podem crescer exponencialmente, até o ponto em que ninguém está prestando atenção em uma aula de Filosofia, que dura não mais do que 50 minutos por semana. O tempo é pouco, mas precisamos, como bons professores de filosofia tirar o máximo disso. "Por quê?", perguntaria alguém.

Porque o sistema educacional, na tentativa de nos fazer falhar nos deu uma grande oportunidade. Por termos um número exagerado de turmas, porque termos um número mínimo de minutos, nos foi concedido "sem querer", uma grande audiência, o que significa que nós FILÓSOFOS TEMOS uma grande multidão de pessoas sendo expostas, minimamente eu sei, ao pensamento dos grandes pensadores que o ocidente já produziu. E qual é o efeito disso? Se as aulas forem bem administradas, significa que toda uma geração de alunos poderá ter acesso aos pensamentos mais intrigantes e questionadores que a história produziu. Deste modo, poderemos encorajar uma geração a se indagar pelo que está aí. Quem se questiona muda a si mesmo e o que está ao seu redor. 

As consequências desta percepção enquanto professor de Filosofia pode me esclarecer o medo gerado por pessoas como Viviane Mosé. Por de trás deste medo todo, há a ideologia, economicamente orientada, de que uma população passiva é muito mais lucrativa para aqueles que estão no poder. E sim o medo dela é justificado, pois assim como elas, pessoas que se aproveitam da miséria alheia podem perder o poder, caso a Filosofia cumpra o seu papel, seja este o de abrir modos novos de ver o mundo e questionar o que está posto.

Obviamente que o que está escrito aqui pode ser devaneio, mas há esperança de mudar o que está posto. A Filosofia sozinha não vai fazer isso, os professores de filosofia somente não poderão fazer isso, mas se a nossa mensagem for passada adiante efetivamente, toda uma geração pode começar a se questionar e daí questionar os modos de viver, os valores que são considerados bons, qual tipo de política pode ser melhor, etc. para daqui há alguns anos este efeito dominó  derrube todas essas peças que não adicionam nada ao nosso tabuleiro.


Ps. Sei que é uma expectativa muito grande para apenas uma disciplina. Mas agora é melhor momento, agora é o melhor tempo para se fazer isso.

PROCESSO CIVILIZATÓRIO









Trecho 1
            “A pele deles são parda e um pouco avermelhada. Têm  rostos e narizes bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem se preocupam em cobrir ou deixar de cobrir suas vergonhas mais do se que preocupariam em mostrar o rosto. E a esse respeito são bastante inocentes. Ambos traziam o lábio inferior furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, fino na ponta como um furador[...] Pedro Vaz Caminha  - Carta ao Rei de Portugal” [ler para os alunos.]
Já se perguntaram qual seria o critério para diferenciar aqueles que são civilizados, para aqueles que são considerados bárbaros?
Durante toda a história da humanidade o homem divide aqueles que não praticam os seus costumes e suas crenças de bárbaros e em oposição ao conceito de bárbaro temos o conceito de civilizado. O que significa ser civilizado? O que significa ser um bárbaro. Para entendermos estas questões recorreremos a dois autores: Nobert Elias com seu Tratado O processo civilizatório  e o brasileiro Darcy Ribeiro em sua obra Processo civilizatório.

As duas obras percorrem a história para encontrar na literatura e nos costumes relatados como cada sociedade, em diferentes épocas, classificou aquilo que era considerado civilizado. Embora cada civilização trouxesse diferentes modos de viver, o conceito de civilizado pode ser designado como os costumes de seu tempo, de seu povo e de sua terra. Por contradição, tudo que for contrário a isso é considerado bárbaro.
Individualmente falando, o homem civilizado seria o individuo que domina os aspectos relacionados à educação e ao bem viver em sociedade.Assim este indivíduo seria aquele que domina  os costumes, do modo a se portar à mesa, em relação às funções corporais, tais como espirrar, tossir, escarrar, arrotar e expelir gases, até o comportamento no quarto de dormir e o controle da agressividade.
A história das boas maneiras  está diretamente relacionada às regras de comportamento social. Essa história refere-se não apenas a questão da etiqueta, mas também diz respeito à moral, à ética, ao valor interno dos indivíduos e aos aspectos externos que se revelam nas suas relações com os outros. Todas as sociedades, ao longo da história, criaram normas e princípios com a finalidade de orientar as relações entre grupos e pessoas. Apesar de nem sempre procederem do Estado, alguns desses princípiss inpunham regras que se não fossem seguidas, implicariam em penalidades, que iam da desaprovação à exclusão daqueles que não  a respeitassem.

Principais instituições que contribuem para o processo civilizatório: família, escola, religião, Estado, polícia. Todas elas a serviço do poder hegemônico econômico e por conseqüência  ideológico.

3 de ago de 2014

ACADEMIA










Convido meus leitores a fazer um exercício imaginativo. Imaginemos que eu e você sejamos sócios de uma academia de luta. Ora, nós desenvolvemos as melhores técnicas de uma arte marcial, nós somos os melhores que possivelmente andarão sobre esta terra. No entanto, essa arte não tem valor se não pudermos passá-la adiante.

O que fazer então?

Simples. Montaremos nossa própria escola. Ensinaremos crianças, jovens, adultos, homens e mulheres a tal arte. Mas concorda comigo que, caso eles se destaquem e se tornem melhores do que nós, eles poderiam facilmente se livrar de seus antigos mestres? Então, um dos sócios propõe o seguinte: “agora que conseguimos nos estabelecer, agora que conseguimos convencer toda uma comunidade da importância de nossa arte, você quer que eu entregue tudo isso de mão beijada para um garoto que é mais talentoso do que nós? E todo o trabalho que fizemos até agora?”. Criaremos hierarquias, séries, emitiremos diplomas. Somente aqueles certificados por nós poderão passar a nossa arte adiante. Porém, não ensinaremos tudo o que sabemos, ensinaremos somente o necessário para que eles possam passar o básico adiante e chamaremos isto de “técnica”, ou se você preferir “metodologia de ensino”. Aqueles que fugirem da nossa técnica serão gradualmente afastados dos nossos centros de ensino.
“Assim você mataria todo o processo criativo. Assim você não permitiria que a nossa arte desenvolvesse todo o seu potencial! Isso é loucura!”, argumenta um dos sócios.

“O que mais importante, o desenvolvimento de nossa arte, do qual nós somos os mestres máximos, ou a nossa sobrevivência? Você quer realmente voltar a ter que mendigar por um espaço? Você quer que nossos discípulos nos superem ou quer sobreviver? Você quer poder ou conhecimento?”, rebate o outro.

O plano é posto em prática. Centros de ensinos são inaugurados, certificados são expedidos, alunos se tornam mestres, mas jamais serão superiores àqueles que criaram a arte. Alguns ensinamentos não foram passados, dentro da Academia é ensinado tudo, menos os golpes que de fato levam à vitória e o alunos/mestres que desenvolvem uma técnica fora da academia são descredenciados, desacreditados, pois o que não é ensinado dentro dos moldes não pode ser aplicado: é contra as regras. A criação de guerreiros castrados é um sucesso.

Fim do exercício imaginativo.

Por coincidência ou não (sei que foi cretino da minha parte escrever uma sentença e inserir um “ou não” no final), qual é o apelido dado às escolas de nível superior? Sim, isso mesmo: Academia.


Alguém se lembrou de Platão durante a leitura? E o que aconteceu quando Aristóteles superou o mestre? Ah, de fato parece que é assim que as coisas se encaminham.