30 de jul de 2014

CONSULTÓRIO MÉDICO




Ir ao médico sempre foi traumático para mim. Não sei vocês leitores, mas toda vez que vou a um consultório médico, acabo saindo mais doente do que estava antes. Sei que não se trata de uma relação de causa e efeito. O pobre do médico não tem nada a ver com as minhas impressões psicológicas. Não é possível culpa-los por essa sequência de eventos. Ir ao médico não te torna necessariamente mais doente.

Não importa que tipo de médico você vá visitar. O padrão é sempre o mesmo. Seja em uma instituição pública, seja em uma instituição particular: cadeiras, pessoas, uma televisão sintonizada em um programa de culinária ou de bem estar, crianças chorando e revistas. De todos os males este é o pior. REVISTAS! De fato não sei qual é o critério para aquelas revistas estarem lá. Será que todos os médicos leem as mesmas coisas e todos os consultórios? Para falar a verdade, acho que eles pegam qualquer coisa, pois entendem que ninguém lerá mesmo.

O fato é que se eu fosse médico, eu colocaria livros de poesia na minha sala de espera. Fazer uma pessoa esperar uma consulta na companhia de revistas de fofoca e de revistas como a Veja revela quão pobre de humanidade nossa medicina é.




27 de jul de 2014

NOVO PROJETO: NARRATIVAS DE UM PROFESSOR DE FILOSOFIA

Olá.

Meus caros leitores, anônimos e não tão anônimos assim, dedico este post à divulgação de um projeto paralelo ao Filosofia por Diversão. Ele se chama "Narrativas de um professor de Filosofia do Ensino Médio", eu sei o nome é grande, mas acho que deixa bem claro qual é o propósito do projeto.

Neste blog descrevo minhas principais angustias como professor de ensino médio, bem como minhas investigações sobre o melhor modo de ensinar filosofia. Como se trata de uma pesquisa, uma procura, ainda não tenho muitas respostas, mas já estou esboçando algumas tentativas bem sucedidas (pelo menos, ao meu ver).  



O endereço da página é: http://docenciaemfilosofia.blogspot.com.br/

15 de jul de 2014

DIÁLOGO: ACHE A CONTRADIÇÃO

Em uma sala de mestres qualquer:

A:... estou terminando minha segunda graduação.
B: É mesmo? Em que?
A: Na área de humanas. Termino neste semestre.
B: Poxa, eu também precisava fazer uma segunda graduação. Dar aulas somente de uma disciplina é foda! Uma aulinha por semana, é muito pouco, e dá muito trabalho. Eu tenho 400 alunos!
A: Pois é. Terminando minha graduação, eu vou fazer um mestrado. Vou emendar logo.
B: Mas esse mestrado é nos moldes do da UFES? Tem que ter projeto? Defender tese?
A: Sim. É claro! Em um ano já dá para defender a tese.
B: Uau!
A: Fazendo o mestrado, eu não preciso ficar me matando de estudar e passar no concurso. Poderei ficar de DT até aposentar. Para falar a verdade, eu não tenho capacidade de passar na prova do Estado. É muito difícil! Mas tendo o título de mestre, mais a pós-graduação da pra levar na maciota, sem term que ficar esquentado cabeça se vai ter vaga, ou não.

B: ...

A: Só que é caro! 36 vezes de 500 reais. Daria para comprar um carro!

B: ...

"Moral" da história: Vamos estudar, porque vai ficar cada vez mais difícil disputar uma vaga de professor.



10 de jul de 2014

ALEMNHA 7 BRASIL 1: UMA DEMOSTRAÇÃO GRÁFICA

O objetivo deste blog nunca foi de fazer comentários sobre futebol. Mas, no Brasil, o futebol é muito maior do que qualquer coisa. Isso é inevitável, como também sou brasileiro acabo por ser influenciado também pelo maior evento de futebol do mundo: a Copa do mundo.

Muito se falou sobre esse evento. Das roubalheiras, da falta de hospitais, da falta de investimento em educação em prol do acontecimento da Copa, verdades ou meia-verdades a coisa está acontecendo, e como tem acontecido. Somente uma pessoa totalmente apática poderia ignorar a Copa do mundo no Brasil. É claro que nem tudo o que acontece é bom. Muitas pessoas perderam suas casas para a construção de estádios, muito coisa ruim aconteceu antes e durante os jogos, entretanto ficamos todos hipnotizados sob efeito mágico da bola rolando. Seria muita hipocrisia negar isso. Até mesmo aqueles que eram contra o evento estão assistindo aos jogos religiosamente.

Para nós não se trata apenas de uma série de jogos, ali está representada a cultura brasileira. Sei que é simplificar demais, a nossa cultura é muito maior que quatro linhas, 22 homens, traves e uma bola. Sim nossa cultura é bem mais vasta do que isso, mas o futebol, a seleção brasileira são as duas coisas que ainda conferem UNIDADE no pensamento brasileiro. É uma daquelas poucas oportunidades que o brasileiro se insere em algo maior do que ele e se identifica como pertencente àquilo.

Por isso A DERROTA DÓI TANTO.  Perder de 7X1 em casa foi uma das coisas mais doloridas que o povo brasileiro, enquanto unidade cultural, pode sofrer. Até porque, quanto ao aspecto cultural, as pessoas pouco se importam o que acontece com o nosso idioma, com a nossa literatura, com a nossa música, com a nossa culinária. Nesse sentido, tudo já se perdeu a unidade, tudo já fora invadido pelo estrangeiro. Mas o futebol ainda tem esse poder de pertencer ao povo, não durante muito tempo para falar a verdade, pois só podemos acompanhar o futebol via televisão, ou seja, já virou um produto da industria cultual, já pode ser considerado algo fora da cultura popular. Mas quem se importa, o importante é ver o Brasil campeão, certo?

No mais queria deixar uma imagem bem representativa do que aconteceu no Mineirão no última dia 8/07/14:







2 de jul de 2014

CRISTIANO RONALDO, PROFESSORES DE ESCOLA PÚBLICA E NELSON RODRIGUES: VALORES GRATUITOS E HISTÓRIAS NÃO CONTADAS.















“Eu continuarei argumentando que nós
só vivemos e só morremos por valores gratuítos ”
Nelson Rodrigues – A pátria de chuteiras

Nelson Rodrigues era um artista que apreciava arte. Não só a arte de escrever, não só a arte que ele produzia. Em seus escritos era possível perceber uma admiração pelo futebol arte e um desprezo pelo futebol eficiente, como os europeus tentavam desenhar. Dizia até que o homem brasileiro era superior no futebol porque o homem brasileiro vivia o futebol e não apenas jogava-o.

O tema futebolístico, aparentemente, não tem muito haver com valores. Entretanto, um argelino ilustre confessou ao mundo o que ele aprendeu sobre companheirismo e ética foi nos campos de futebol. O esporte certamente tem um aspecto pedagógico importante. Nos ensina que para que alguém possa ganhar, outros têm que necessariamente perder. A disputa faz parte do jogo, mas a vitória só possível se um time for bem coordenado, se cada jogador puder confiar em seus companheiros. Um grupo de pessoas batalhando juntos para um único objetivo: a vitória. Talvez, essa seja a única experiência de coletivo que algumas pessoas vão ter durante suas vidas, especialmente em tempos como os nossos.

O mundial de 2014 resgatou um pouco desses valores, valores esses que são gratuitos. São valores que, segundo Nelson Rodrgues, mataríamos e morreríamos por eles e, ainda, são valores que se não fossem cultivados, a humanidade logo desapareceria. Quem diria! Recebermos lições de morais do anjo pornográfico!

Digo que o mundial resgatou esses valores por uma série de simples atos feitos por Cristiano Ronaldo, estrela do escrete português. O tal gajo é conhecido por ser um homem muito vaidoso e dono de uma vasta fortuna. No entanto, poucos sabem que ele é engajado em causas em prol da saúde e bem estar de crianças.  Antes de um jogo decisivo, o escrete português entrava acompanhado de um grupo de crianças. Elas na presença da estrela não conseguiam se comportar e começaram a tietar, de modo tímido no início, mas carregado de muita afetividade. Pediram abraços ao jogador que prontamente correspondeu. No mesmo dia o destaque da seleção portuguesa apareceu com um corte de cabelo diferente. Havia listras em sua cabeça, muitos acharam aquilo ridículo, sem saber que se tratava de uma homenagem a um menino que estava muito doente em um hospital.

Esses atos não são exclusividade do futebol, é claro, mas em um mundo onde a ação das estrelas é sempre pensada milimetricamente pelos patrocinadores, para gerar mais publicidade, é de se estranhar um gesto cordial como o de Ronaldo, até porque estamos falando de Copa do mundo, um evento competitivo. Esses valores gratuitos são repetidos diariamente por muitos professores em escolas. Aquela atenção a mais, aquele olhar diferenciado, a dedicação para passar o conteúdo da melhor forma possível aos alunos, dentro dos limites físicos e espirituais são reproduções daquilo que não está no script, ações além do que é esperado de um profissional, mas evento ordinário para aqueles que se consideram humanos. A diferença é que não há câmeras revelando isso, como no caso de Cristiano Ronaldo, e a semelhança? A semelhança estaria na crença de cultivar uma melhor geração do que a nossa através de bons exemplos.


Só que nem tudo é felicidade neste mundo trágico, mas como toda a tragédia há beleza lá, e que alguns poucos podem apreciar. Afinal, “a beleza salvará o mundo”. Assim como Cristiano Ronaldo, os professores e muitas outras pessoas praticam esses pequenos atos de beleza, no entanto falham, não conseguem passar da fase de grupos, são uns fracassados, voltam para suas casas tristes, mas nunca cabisbaixos. A Cristiano Ronaldo, professores e todos aqueles que cultivam os valores gratuitos para além do sucesso ou do fracasso, este texto fica como a versão da história não contada, pois embora vocês estejam aí mundo afora fazendo o trabalho de formiga, o mundo não vos enxerga!