21 de fev de 2014

FALA AOS MOÇOS




O Ministério da Educação distribuiu uma coleção de livros sobre grandes educadores. Dentre os títulos há nomes como os de Paulo Freire, Anísio Texeira, John Dewey e Darcy Ribeiro.

Os livros consistem em um estudo sobre o autor, apresentado as principais obras e lutas, bem como a ideias que norteiam suas práticas. 

Darcy Ribeiro foi responsável por estudos sobre os índios, a defesa da escola pública de qualidade, foi criador dos Cieps - Centros Integrados de Educação Pública - utilizado como palanque para as eleições de Leonel Brizola a governador do Rio de Janeiro. Essas escolas, que foram criadas na década de 1980 já contavam com uma política de "dar mais a quem tem menos", foram escolas modelos, mas não sobreviveram a politicagem típica do Estado brasileiro, onde os governos são mais importantes do que o Estado.

Darcy também foi responsável pela criação da UnB - a Universidade de Brasília - à época, o projeto era destemido e quase não vingou. Há inclusive um caso curioso: A Unb para poder funcionar teve de abrir suas portas para o Curso de Teologia, pois do contrário forças conservadoras do país não apoiariam a criação da universidade.



Além de educador, antropólogo e pesquisador, Darcy também se envolveu na política e participou ativamente na elaboração da atual LDB - Lei de Diretrizes Básicas da educação, promulgada em Dezembro de 1996.


O post de hoje, além de trazer essas informações biográficas do educador, tem como objetivo a propagação de uma mensagem do autor para os moços. É um texto que nos faz lembrar do papel de cidadão que todos devem exercer e nos lembra que a principal forma de construir uma democracia sólida só pode ser feita através de uma educação forte, e acessível para todos.


Eis o que peço a cada jovem brasileiro: repense estas ideias, reavalia estes sentimentos e assuma, afinal, uma posição clara e agressiva no quado político brasileiro."

FALA AOS MOÇOS




"Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando e lutando, como um cruzado, pelas causas que me comovem. Elas são muitas, demais; a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isto não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas.

Tudo que diz respeito ao humano, suas vidas, suas criações, me importam supremamente. Dentro do humano, o povo brasileiro, seu destino é o que mais me mobiliza. Nele, a ínvia indianidade brasileira, que consegue milagrosamente sobreviver. Mas, sobretudo, a massa de gente nossa, ainda em fusão, esforçando-se para florescer numa nova civilização tropical, mestiça e alegre.

Acho que aprendi isso, ainda muito jovem, com os amigos comunistas. Imbatíveis em sua predisposição generosa de se oferecem à luta, por qualquer causa justa, sem mais querer que o bem geral. Estou certo de que a dignidade, e até o gozo de viver que tenho, me vêm dessa atitude básica de combatente de causas impessoais. Tanto que me atrevo a recomendar duas coisas aos jovens de hoje.  Primeiro, que não respeitem seus pais, porque estão recebendo, como herança, um Brasil feio e injusto, por culpa deles. Minha também, é claro. Segundo, que não se deixem subornar por pequenas vantagens em carreirinhas burocráticas ou empresariais, pelo dinheirinho ou dinheirão que poderiam render. Mais vale ser um militante cruzado, acho eu.

Vejo os jovens de hoje esvaziados de juventude, enquanto flama, combatividade e indignação. Deserdados do sentimento juvenil de solidariedade humana e de patriotismo e de orgulho por nosso povo. Incapacitados para assumir as carências dos brasileiros como defeitos próprios e sanáveis de todos nós.  Ignorantes de que o atraso, a fome e a pobreza só existem e persistem,entre nós, porque são lucrativos para uma elite infecunda e cobiçosa de patrões medíocres e de políticos corruptos. 

Afortunadamente, podemos nos orgulhar de muitos jovens brasileiros que são o sêmen de nosso povo sofredor. Sem eles, nossa Pátria estaria perdida. É indispensável, porém, ganhar a totalidade da juventude brasileira para si mesma e para o Brasil. O dano maior que nos fez a ditadura militar, perseguindo, torturando e assassinado os jovens mais ardentemente  mais combativos da última geração, foi difundir o medo, promover a indiferença e a apatia. Uma juventude que não abdique de sua missão política de cidadãos responsáveis pelo destino do Brasil, porque sia ausência é imediatamente ocupada pela canalha.

Talvez eu veja tanto descontentamento onde o que há é apenas o normal das coisas ou o sentimento do mundo que corresponde às novas gerações. Talvez seja assim, ma isso me desgosta muito. Desgosta, principalmente, porque sinto no fundo do peito que é obra da ditadura militar tamanha juventude abúlica, despolitizada e desinteressada de qualquer coisa que não corresponda ao imediatismo de seus interesses pessoais. É por isso que não canso de praguejar e xingar, exaltado, dizendo e repetindo obviedades. Sobretudo, quando falo à gente jovem em pregações sobre valores que considero fundamentais e que não ressoam neles como eu quisera.

Primeiro de tudo, o sentimento  profundo de que esse nosso paísão descomunal e esse povão multitudinário, que temos e somos, não nos caiu ao acaso; nem veio de graça. É fruto e produto de séculos de lutas e sacrifícios de incontáveis gerações. O território brasileiro é do tamanho que é graças à obsessão portuguesa de fronteira, impressa nele por um milênio de resistência, para não serem absorvidos pela Espanha, como ocorreu com todos os outros povos ibéricos. Desde os primeiros dias de nosso fazimento estava o lusitano preocupadíssimo em marcar posses, gastando nesse esforço gerações de índios e caboclos que nem podiam compreender o que nos faziam.




(muitas das lutas e da formação de nosso povo pode ser vista no excelente filme Uma história de Amor e Fúrias)

Meu apego apaixonado pela unidade nacional começa pela preservação desse território com a base física em que nosso povo viverá seu destino. Encho-me de mais furiosa indignação contra quem quer manifeste qualquer tendência separatista. Acho até que não poderia nunca ser um ditador, porque mandaria fuzilar quem revelasse tais pendores.

Outro valor supremo, e até sagrado, que quero comunicar à juventude, é o sentimento de responsabilidade pelo atroz processo de fazimento de nosso povo, que custou a vida e a felicidade de tantos milhões de índios caçados nas matas e de negros trazidos de África, para serem desgastados no moinho brasileiro de matar gente. Nós viemos dos zés-ninguém gerados pela índia prenhada pelo invasor  ou pela negra coberta pela amo ou pelo feitor. Aqueles caboclos e mulatos, já não sendo índios nem africanos e não sendo também admitidos como europeus, caíram na ninguendade. A partir desta carência de identificação étnica é que plasmaram nossa identidade de brasileiros. Fizeram-no um século depois, quando, através dos insurgentes mineiros, tomamos consciência de nós brasileiros como um povo em si, aspirando existir para si.

Surgimos, portanto como um produto inesperado e indesejado do empreendimento colonial que só pretendia ser uma feitoria. A empresa Brasil se destinava era a prover o açúcar de adoçar boca de europeu, o ouro de enricá-los e, depois, minerais e quantidades de gêneros de exportação. Éramos, ainda somos, um proletariado externo aqui posto para servir ao mercado mundial. Criá-lo foi façanha e glória das classes dominantes brasileiras, cujo empenho maior consistia, e ainda consiste, em nos mantes nessa condição.

Foi sobre esse Povo-Nação, já constituído e levado à independência com milhões de caboclos e mulatos, que se derramou a avalanche europeia quando seus trabalhadores se tornaram descartáveis e disponíveis para a exportação como imigrantes. Os melhores deles  se identificam com o povo antigo da terra e até se tornaram indistinguíveis entre nós, por sua mentalidade, língua, cultura e identificação nacional. Ajudaram substancialmente a modernizar o país e a fazê-lo progredir, gerando uma prosperidade ampliada, ainda que muito restrita, e que beneficiou principalmente os recém-vindos.

É de lamentar, porém, que vez por outra surja, entre eles, uns idiotinhas alegando orgulhos de estrangeiridade. O fazem como se isso fosse um valor, mas principalmente porque estão predispostos seja a quebrar a unidade nacional em razão de eventuais vantagens regionais, seja a retornarem eles mesmos para outras terras, como fizeram seus avós. Afortunadamente, são uns poucos. Com um pito se acomodam e se comportam. Compreendem, afinal, que não há nesse mundo glória maior que participar da criação, aqui, da civilização bela e justa que havemos de ser.

Tal como ocorreu como nossos antepassados, hoje, o Brasil é nossa tarefa, essencialmente de vocês, meus jovens. A história está a exigir de nós que enfrentemos alguns desafios cruciais que, em vão, tentamos superar há décadas. Primeiro que tudo, reformar nossa institucionalidade para criar aqui uma sociedade de economia nacional e socialmente responsável, a fim de alcançarmos um prosperidade generalizada a todos os brasileiros. O caminho para isso é desmonopolizar a propriedade da terra, tirando-a das mãos de uma minoria estéril de latifundiários que não plantam e nem deixam plantar. Eles são responsáveis pelo êxodo rural e o crescimento caótico de nossas cidades e, consequentemente, pela fome do povo brasileiro. Fome absolutamente desnecessária, que só existe e só se amplia porque se mantém uma ordem social e um modelo econômico compostos para enriquecer os ricos, com total desprezo pelos direitos e necessidades do povo.

Simultaneamente, teremos de derrubar o corpo de interesses que nos quer manter atados, servilmente, ao mercado mundial, exigindo privilégios aos estrangeiros e a privatização das empresas que dão ser a e substância à economia nacional, para manter o Brasil como o paraíso de banqueiros.  Não se trata de deixar de ser um reles proletariado externo para ser um povo que exista para si mesmo, ocupado primacialmente em promover sua própria felicidade.

Essas lutas só podem ser travadas com chances de vitória desmontando a ordem política e o sistema econômico vigentes. Seu objetivo expresso é preservar o latifúndio improdutivo e aprofundar a dependência externa para manter a elite rural esfomeadora e  enriquecer um empresariado urbano servil a interesses alheios. Todos eles estão contentes com o Brasil tal qual é. Se não anularmos seu poderio, eles farãodo Brasil do futuro o país que corresponda aos interesses dos países que nos exploram.

Netas singelas proposições se condensa para mim o que é substancial da ideologia política que faz dos brasileiros, brasileiros dignos. Tais são o zelo pela unidade nacional; o orgulho de nossa identidade de povo que se fez a si mesmo pela mestiçagem da carne e do espírito; a implantação de uma sociedade democrática onde imperem o direito e a justiça para todos; a democratização do acesso à terra para quem nela queira morar ou cultiva; a criação de uma economia industrial autônoma como o são todas as nações desenvolvidas.

Eis o que peço a cada jovem brasileiro: repense estas ideias, reavalia estes sentimentos e assuma, afinal, uma posição clara e agressiva no quado político brasileiro."


Fonte: Gomes, Alberto Candido - Darcy Ribeiro - Editora Massangna - Recife, 2010. pp 126-130.
Ps. Grifos nossos


16 de fev de 2014

OLIVER NORTH, BOLSONARO E RICHARD RORTY






Nunca ouvi tanta besteira em um período tão curto. Traços e rastros evidentes sobre a história e as lutas das minorias brasileiras








Trecho da entrevista de Richard Rorty entitulada Rumo à Cultura pós-metafísica.

Nessa entrevista, Richard Rorty conversa com o jornalista Micheal O'Shea sobre a vida, o universo e tudo mais. Lembro de ter submetido essa tradução aos cuidados da acadêmia, mas à época o departamento de filosofia não mostrou interesse no debate. Hoje, com a  manipulação dos fatos e a criminalização de protestos, bem como uma classe média cada vez mais reacionária, o assunto da entrevista não poderia estar melhor contextualizado.

Não seria exagero em exigir cautela ao povo brasileiro quanto às posições quase fascistas que a classe média vem tomando nos últimos meses. 

Ao escrever sobre Senador Oliver Notrh em um editorial do NY Times de 1994, a semelhança com um personagem conhecido nosso foi imediata. O que hoje, O Brasil vive com as figuras de Bolsonaro e Feliciano, os EUA viveram com as declarações do polêmico North.

Nessa entrevista Rorty aponta as origens do por que as pessoas votarem ou apoiarem esse tipo de atitude.

Entrevista do livro Take care of Freedom and Truth will take care of itself.  Edidted by Eduardo Mendieta. Stanford, California. Stanford Uinvesity Press:. 2006. Pp 48- 55.

P representa o entrevistador e R.R Richard Rorty

P: Dado que a sua visão é de que nossa época é caracterizada pelo crescimento da secularização, o que pensar da existência do fundamentalismo neste país [Estados Unidos], o direito ao livre culto tem um efeito notável sobre políticas públicas? Isto parece mostrar que tradições religiosas e outras formas não-irônicas de crenças estão vivas na esfera pública.
R.R: Penso que isso acontece quando há uma classe média que está muito amedrontada e defensiva. Ela começa a procurar modos de dividir a sociedade entre ovelhas e bodes[1], para fazer alguém de bode expiatório. A classe média americana tem excelentes motivos para estar amedrontada acerca do futuro de sua economia e o futuro econômico dos Estados Unidos. Quanto mais medo houver, mais cultos, mais movimentos quasi-fascistas e coisas desses tipos haverá em nosso país, e tudo aquilo que classificamos como “ultra-direita”.
P. O que se pode fazer para evitar isso, além da recuperação econômica?
R.R: Eu não sou um especialista em economia para dizer algo, mas tudo indica que a globalização da mão-de-obra afetará o padrão de vida nas democracias industrializadas. Penso que enquanto o padrão de vida da classe média de um país democrático corre perigo, esse mesmo governo democrático também corre risco.




P: No outono de 1994, você escreveu em editorial sobre a eleição do senado de Virginia, no qual você analisou o candidato Oliver North como um sintoma de crise de valores entre os habitantes de Virginia. Seria o tipo de inspiração do machismo antiquado que as pessoas viram em Oliver North análogo ao tipo de inspiração dos cultos que você vê na classe média americana de hoje? Isso nasce do mesmo tipo de medo?
R.R: Sim. O pregador fundamentalista e o oficial militar se tornam figuras de força e pureza, mais ou menos, simultaneamente. Eles são vistos como pessoas que não têm fraquezas morais, ou nenhum outro tipo de fraqueza, e também, eles não têm tempo para pessoas más – liberais. Eles são vistos como guardiões fortes da virtude contra os fracos, ou as pessoas más.





[1] Referência ao texto bíblico Mat. 25: 31-36

Racismo por aí


"O ocidente nem é racista", afirma a torcida do flamengo.
No entanto, dia desses fui pesquisar sobre dois deuses: Loki e Exu.
Os dois representam, no linguajar de Jung, o mesmo arquétipo. Eles representam o herói pícaro(por favor, sem piadinha), ou seja, aquela energia psíquica responsável por pregar peças, brincar e tirar a seriedade das estruturas e instituições, nos quais, eles estão inseridos. Eles são os trolls elevados à enésima potência. A zueira é o que os guia!
O deus nórdico está em filmes,te fãs e todo mundo gosta de ver-lo nas telonas.
Já o "deus" (não sei se é o termo correto dentro da tradição religiosa) de origem africana é associado com o mal, o capiroto, às trevas.

Não, a ignorância não é uma benção!