12 de set de 2016

LENTES














Chegou aquele momento para o nosso herói. Já havia muito tempo que não ia ao oftalmologista. Sua vista estava cansada e distorcida.
Enxergava grandes sombras de coisas pequenas, e coisas grandes projetavam sombras minúsculas. Era uma fase da vida em que sorrisos fáceis não saiam de seus lábios. No entanto, seu cinismo ainda entregava a memória de alguém que já havia cultivado esperanças.

O médico o atendeu com a indiferença e má fé necessária para que as coisas funcionem.

Da máquina o médico arrancou uma papelzinho que indicava quais lentes serviriam melhor ao paciente.

"Vou colocar a lente e você lê para mim o que está na projeção, certo?"
"Certo"

A primeira lente indicava fatalismo

" Não consigo ler nada".

O médico então abaixou a lente "eternidade"
"Consegue ler agora?"
"Sim."
" O que se pode ler?"

"Nada como um dia após outro".
"Exatamente. Sob a ótica da eternidade não existe nada melhor do que um dia após o outro", disse o médico.

"É. Parece justo." Respondeu o paciente.

"Vamos então ao próximo olho.'

Sob a lente da eternidade o outro olho não enxergava nada. Então o médico ajustou para a lente "finitude".

" É agora consegue ler?"
"Sim."
" O que se lê?"
" Não há mal que dure para sempre." Respondeu o herói.
"Exato. Sob a lente da finitude, na há mal que dure para sempre," disse o médico.

Depois de algum tempo o médico escreveu a receita das novas lentes para o nosso herói. Não sei quantos graus para a eternidade e não sei quantos graus para a finitude.

" Olha, nos primeiros dias você vai se sentir desconfortável, talvez até tropece ou sinta tontura por conta dessas novas lentes, mas vai te ajudar a enxergar melhor. Você se sentirá mais ajustado. Sucesso e tudo de bom pra você", disse o médico.

"Que bom!" Disse o nosso herói. " Mas sabe o que mais me anima nisso tudo, doutor?"

"Não, o que é?"

"É que pra sonhar eu não preciso usar óculos."

4 de fev de 2016

Vai passar

Chamam a ansiedade de mal do século. A que ponto chegamos? No século XIX o mal do século consistia em adolescentes bêbados e moribundos escrevendo belas poesias. Depois do filósofo, o poeta é filho e pai de seu próprio tempo. É um pouco como aquela coisa, do menino ser pai do homem.
            A ansiedade, segundo algumas correntes de pensamento religioso-filosófica é o medo do amanhã. Portanto, irreal. Lidar com a ansiedade é um exercícios de ter que lidar com medos que só existem, em tese, dentro da cabeça do ansioso.
            O ansioso é aquele ser que é viciado em pensar em larga escala. O exemplo é o do ansioso que começa uma dieta. Ao invés de pensar naquele almoço, aquela refeição que está diante dele, ele pensa no mês inteiro, ou na semana inteira em que ele não poderá comer chocolate. E por assim fazer, acaba entrando em um círculo vicioso de ansiedade e compulsão. Não vai adiante porque é incapaz de pensar no agora. De focalizar no que tem em suas mãos. Sua cabeça é enorme. Seu mundo é uma configuração de engrenagens milimetricamente articuladas, desenhadas para fazer um sistema de crenças funcionarem. Quando, porém, uma engrenagem, por menor que seja para de funcionar, seu castelo de vento desaba. O que engraçado é que o castelo, ao cair, nem barulho faz...
            Estar ansioso é lidar com algo mais irreal do que fantasmas.
Nem tudo é desastre. Há formas de lidar com a ansiedade: meditação, esporte, sexo, drogas, álcool e por aí vai. Existem opções saudáveis e opções que trocam um dano por outro. Dizem que, às vezes, se chega a um estágio em que a política da contenção de danos é a melhor estratégia. Troca-se um dano por outro, o menos pior.
            Em meio a isso tudo, deparo-me com a dica de pensar o seguinte: “Quando estiver entrando em um looping de ansiedade pense: isso vai passar”. Sim, isso vai passar, tanto para o bem quanto para o mal. A estratégia parecia legítima. Porém comecei a analisar com mais cuidado.
            Fiquei pensando minhas crises de ansiedade de homem branco, contemporâneo, classe média, hetéro e pai do Eduardo. Como é que com esse perfil ainda posso me dar o luxo de ser ansioso? Forcei mais a barra: esse tipo de mal do século é filha do próprio tempo mesmo. Imaginem se um escravo teria o luxo de estar ansioso e pensar para si mesmo: vai passar. Nada passará, tudo é urgente para uma forma de vida como aquela.
            Conclui que a ansiedade é o paradoxo entre o medo do amanha e a falsa noção que há tempo viável para encontrar a condição ideal. Além disso, adicione nessa equação a noção de que essa estratégia do “vai passar” esconde a ideia de que teremos uma vida depois da vida.  Um escravo, por exemplo, não poderia pensar assim. Ele vai sempre estar fodido, pois enquanto vivo é um escravo e diante da moral dos senhores seu corpo não possui alma, logo queimará no inferno!
            ***
            Como mencionado, a ansiedade é um tipo de temor pior que fantasmas. Ao me colocar na perspectiva de um escravo e de sua urgência inevitável de fodido, vi minhas ansiedades como simples matéria de um tolo. O ansioso, assim como eu, é um tolo!
***

            Minhas frustrações ficaram ainda menores, quando, andando por aí uma pichação me advertiu: “Autoajuda é o caralho! Nego aprende na pancada!”. 

7 de jan de 2016

Sentença


            O portão se arrasta. O guarda dá um passo em seguida um homem avança. Algemas nos braços e nos calcanhares. Seu corpo se move dentro do uniforme cinza, nem tão apertado, nem tão solto, o tipo de medida que ele mesmo jamais encontrou para quando comprava roupas, parece que cada centímetro desse lugar foi pensado para abrigá-lo.
            A recepção é sempre calorosa. O procedimento oficial é executado, não há mistério: o detento recebe higienização, corte de cabelo e barba, verificação da saúde como um todo e uma revisão dos registros. O procedimento extraoficial revela a humanização da instituição. Como todo processo humanizado, esse procedimento é criativo, cada grupo e cada instituição tem sua marca distintiva. Nesse caso, o procedimento de boas-vindas era o seguinte: 10 a 15 minutos de espancamento em silêncio, seguidos de uma lição de moral tirada da bíblia:
“Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus; as que existem foram instituídas por Deus. Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus; e os que a ela se opõem, atraem sobre si a condenação. Romanos 13:1,2. Entendeu seu pedaço de merda? Você é um desordeiro! Seu badernista do caralho!! Agora não ache que você é especial. Você só é mais um merda que foi enviado para cá, e assim como os outros nós vamos te consertar!”
            Depois disso, cela. Um guarda, um preso. As pancadas deixam os internos tão moles que eles começam a seguir ordens sem muita resistência. É verdade que os novos internos não andavam com tanta confiança depois do tratamento extraoficial, pareciam crianças reaprendendo a andar.
            O guarda parou. Em seguida o prisioneiro parou.
            “Cela 42. Entre, durma. Acordamos às 06 da manhã. Pela manhã, sua cara deve estar arrumada, assim como sua cama. Nossas celas são limpas e você deve manter elas assim. Conforme os dias forem passando, você aprenderá sobre nossa rotina, e logo ela será sua rotina. Você será um de nós, porque agirá como um de nós. E quando estiver pronto, poderá voltar para o convívio social”. O guarda terminou de ler as instruções e desejou boa noite.
***
            Pela manhã, a sirene toca. Todos de pé. O recém-chegado observa o companheiro de cela para aprender o que deve ser feito. Dobra o cobertor, estica o lençol na cama e ajeita o travesseiro. O seu companheiro de cela faz com muita rapidez, o novato não.
            “Vamos lá! Termine essa merda direito, ou eu também vou me foder!”, reclama o veterano.
            “Porra, se você está incomodado, porque não vem aqui e arruma você mesmo!”, rebate o novato.
            O veterano responde com um olhar. Respira fundo. Pensa em explicar que se ele ajudar será penalizado e se agredir o novato também será penalizado. Ele já possui dois registros, não quer arriscar o terceiro registro, sabe muito bem o que acontece com as pessoas que têm três registros.
            “Foi o que pensei. Você é um covarde mesmo!”, diz o novato.
            As grades se batem, os portões se arrastam. Equipes de guardas entram no pavilhão. Seus coturnos atingem o solo e ecoam passos orgulhosos. Uma voz anuncia por meio do rádio:
            “Senhores. Bom dia. Inspecionaremos vossas acomodações. Nossas celas são limpas e organizadas, e vamos mantê-las assim. Hoje é o 300º dia de nosso calendário, uma quinta-feira. O clima está ameno e ensolarado, um belo dia para se visitar o parque com a família. Coisa que nem eu nem vocês iremos fazer, é claro por motivos diferentes. Vocês por serem o que são e eu por ter de vigiar suas carcaças. Por isso, não me desapontem. Guardas, comecem a inspeção.”
            Em pares, os guardas abrem as celas. Um fica na porta, o outro entra, verificava as camas, os prisioneiros e sai. Tudo em silencio. Se tudo estivesse bem, a cela era trancada novamente e os prisioneiros poderiam se dirigir para o refeitório.
            “Se prepara novato. Espero que não impliquem com essa arrumação de merda que você fez.”
            “Vocês não tomarão café hoje. Ensine o novato a arrumar a cama direito. Essa bagunça é inaceitável!”
            Socos, chutes e cacetadas.
            “Já não basta a bagunça que fizeram lá fora? Vocês querem fazer zona aqui dentro também? Eu deveria adicionar outro registro em vocês...”
            “Por favor, não!” fala o veterano enquanto tenta se erguer.
            “Quem te deu autorização para falar?”, o guarda suspende a mão, porém hesita. “Você tem muita sorte... vou te poupar de mais um registro... agora ensine o bebezão aí a tomar conta da própria cama. Pelo amor de Deus, vocês tem um trabalho só e mesmo assim conseguem cagar tudo...”
            “Tá feliz agora?”
            “Eu poderia de dar um sorriso de satisfação, mas a minha cara toda dói. Mas que porra é essa? Por que tanto medo de mais um registro?”, perguntou o novato.
            “Você não sabe, não é? Não me surpreende. É o seu primeiro registro?” perguntou o veterano.
            “ Três registros. Isso é necessário para te matarem. Como já estamos presos, não há necessidade de julgamento. O que é decidido aqui e executado aqui. Quando se passa pelo tribunal, pelo menos tem o advogado pra te defender... bem, aqui... aqui dentro  eles são os nossos juízes, nossos advogados e.... e nossos executores...”
            “Mas pensei que essa história de três registros fosse uma lenda...”
            “Toda lenda vem de algum lugar, não é? Pois é... não é uma lenda. Com o nível de detalhamento que essas canalhas conseguiram alcançar, não há nada que escape os olhos do deles... Meu amigo, eles sabem a que horas você caga, a que horas você tem fome... pode parecer exagero, mas suspeito que eles consigam decifrar a hora que você quer meter... nada escapa, ou você anda na linha ou você recebe um registro... aposto que eles sabiam quando eu ia... e é por isso que estamos aqui.”
            O novato senta-se em sua cama. Coloca a cabeça entre suas mãos, seu coração dispara. As coisas começa a se encaixar... ele agora entende porque está ali...
            “Agora presta atenção seu FDP, ou você anda na linha ou você recebe o registro, e se chegar ao terceiro... você some... literalmente some. Já ouviu falar de alguém que tenha recebido o terceiro registro? Claro que não! É porque quando se chega ao terceiro registro não é somente a tua vida que arrancam... eles retiram a memória de sua existência... é impossível provar que alguém existiu, depois que essa pessoa recebe o terceiro registro...”
            “Você deve ser mais um desses malucos. Vai dizer que você acredita na Revolução também?”
            “Ah, muleque... você é jovem demais para lembrar... mas havia um ditado de quando eu era menino: Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.... e é exatamente isso que eles estão fazendo. Eles suspeitam de mim... e é por isso que eu tenho de manter quietinho, sacou?”
            “Você fala muita merda...” falou o novato.
            “Você não se lembra disso... mas a gente se conhece.... o segundo registro faz isso com as pessoas... você pode não acreditar em mim agora... mas logo verá que tenho razão. O primeiro registro já faz com que as pessoas do seu circulo social comecem a esquecer de você, depois o segundo atinge seus relacionamentos mais próximos: amigos, alguns membros da família, etc. O terceiro registro... bem... dizem que é lenda... mas o que escapa é que ninguém se lembra de alguém que teve o terceiro registro...”
            ***
            Passadas algumas semanas, dois guardas chegam à cela 42.
            “Novato, levanta! Seu advogado conseguiu um alvará de soltura. Vamos, você deu sorte. Nem deu tempo de te dar mais um registro...”
            ***
            Todos os dias de manhã era a mesma coisa. Levantava às 06, arrumava a cama, tomava café. Crenças e hábitos dos outros se tornaram crenças e hábitos dele. “Essa é a nossa rotina, logo, logo você fará parte ela também.”. O discurso do guarda ainda reverberava em sua mente: “Nossas celas são limpas, e eu manterei elas assim...”
            A cada mês, o novato tinha de ir até  às autoridades para comprovar que tinha se afastado das má condutas. Numa dessas visitas, passou ao lado de seu advogado.
“Ei Murdock! Como vai? Muito trabalho? Eu te vi dia desses, mas não consegui falar com você, a gente precisava ver como está minha situação. Ter de vir aqui todo mês é um saco e...
            Advogado cortou o novato.

“Desculpe-me senhor, mas como você sabe meu nome?”

18 de nov de 2015

Orgasmo na Biblioteca




            Mais uma tarde quente de novembro. A cidade de Vitória é bela e abriga lindas praias. O calor também é outro elemento característico da cidade: calor capixabês. Vitória é aquele tipo de cidade que ainda não se decidiu se quer ser Rio de Janeiro ou São Paulo quando crescer. Engloba a fluidez do imaginário e leveza da orla carioca e ao mesmo tempo apresenta altos arranha-céus e pessoas de terno e grava, em um calor que dura de outubro a junho.
            A universidade fica no meio desses mundos. A universidade é verde. Há uma extensa relva entre prédios, devidamente aparada é claro. Tudo é tão naturalmente artificial. No meio dessa relva há um filete de concreto que interliga os destinos: uma passarela rasga a grama de uma ponta à outra, indica os caminhos. No meio dessa relva, no meio dessa passarela está Ricardo.
            É final de semestre. O moço precisa devolver alguns livros. Dirige-se à biblioteca. Embora ele não saiba, seu corpo poupa energia, um passo de cada vez; sobreviver o calor é uma tarefa  exigente para  o corpo de Ricardo. O suor já percorre por debaixo da mochila. Se ele tirar a mochila das costas poderemos ver o desenho dela marcada no tecido.
            A biblioteca possui três andares. É um dos maiores prédios da universidade. Tem amplas janelas que rodeiam toda sua extensão e grades para impedir o furto dos livros.
            O procedimento padrão é deixar bolas, pastas e qualquer outro item que possa ser suado para roubar livros em um dos armários.
            As chaves ficam penduradas nas portas. Basta escolher o cubículo, trancar e levar a chave. Simples e rápido. Era para ser. Mas não para Ricardo. Ele perambula pelas copiosas fileiras de armários até encontrar um que caiba sua grande mochila. E nessa procura ele não está só. Duas moças, não muito mais jovens do que ele repetem o procedimento. Ele não consegue ver seus rostos. Uma loira, outra morena. Longos cabelos, o cabelo da loira um pouco mais ondulado do que a da morena. Ambas com silhuetas bem delineadas, peles lisas, bundas arrebitadas e redondinhas...
            Ricardo não consegue evitar. Por mais que haja um debate sobre a coisificação do corpo feminino, ele não pode não pensar em outra coisa a não ser estar no meio daquelas quatro pernas torneadas.
            Ambas usam shortes jeans curtos e leves blusas de alças. O calor estar de matar! Ricardo sente o calor do ambiente e o calor de seus instintos. Controla-se, segura, respira fundo, volta o olhar para o chão. Ainda é um homem racional. Por isso pode aproveitar a cena como um evento estético; aprecia as formas dos corpos não só como carne, mas como exemplares da beleza do corpo feminino; como estar diante de duas belas estátuas de marfim. Ele disfarça, mas ao subir as escadas poucos são os ângulos alternativos em que seus olhos não recaiam sobre as ancas das moças. Elas sobem na frente e ele sobre três andares admirando aquelas curvas afrodisíacas.
            Ao chegar no terceiro andar, elas vão para um lado e ele para outro. O torpor hormonal é cortado. “Jamais verei as caras delas”, disse para si mesmo. Não importa, já tinha visto o suficiente.
            ***
            A biblioteca tem um sistema de busca informatizado, um aprimoramento que facilita a vida de estudantes e pesquisadores. O usuário deve inserir o termo que busca – assunto, nome do autor, nome do livro, etc. – no cambo de busca e clicar em uma lupa. Depois de alguns segundos – normalmente é uma questão de segundos – os sistema traz a relação de livros do acervo.
            Ricardo estava cansado da leitura técnica. Havia semanas que se dedicava ao estudo e escrita de artigos. Um dos remédios para sua imaginação era recorrer a literatura. Ficou sabendo de um tal de Jorge Luis Borges, ou algo assim. Um escritor argentino. Ele ficou curioso para saber se o autor era digno da fama.
            Ele empunhou o mouse, arrastou-o até o campo de busca. Deu um clique. Olhou na tela. O campo já estava preenchido. Alguém escreveu lá “orgasmo”, isso mesmo “orgasmo”. A lista sobre o assunto era longa.  “Acho justo procurarem sobre o assunto. Mas, a pessoa que procura por orgasmo em um biblioteca deve estar procurando no lugar errado. Há quem diga que a biblioteca é uma espécie de paraíso, mas não é aqui que ela encontrará o orgasmo. Mais fácil seria ir a um puteiro, né?”, pensou.
            “Orgasmo e sua função fisiológica”, “Prazer, gozo e orgasmo”, “Experiência e prática do orgasmo feminino” foram os títulos listados entre outros. Ricardo sorri.
            “As pessoas levam isso a sério”. Apagou o histórico de busca e inseriu o que procurava. Anotou o número da chamada e partiu.
            Ricardo jamais entendeu aquele sistema de chamada por completo. Certa vez, um grande amigo seu dedicou alguns minutos explicando como funcionava. “Basta achar a estante certa”, falava seu amigo. “Depois você olha esse número aqui, depois desse número vai ter a inicial do sobrenome do autor...”. A única coisa que Ricardo lembrava era “basta achar a estante certa”. Ricardo  aproximava-se da estante enumerada e, por sorte, sempre encontrava o que queria. Hoje não foi diferente. O que significa que a sua maneira, Ricardo aprendeu a encontrar livros na biblioteca.
            A estante indicada era a última da biblioteca. Isso abriu espaço para a distração e para pensar. Ainda achava a ideia de procurar sobre o orgasmo na biblioteca ridícula. No entanto, admitiu que o sistema era honesto, o que se inseria ali poderia ser encontrado.
            Talvez a ideia da outra pessoa não seja tão estupida assim. O que se insere no campo de busca pode ser encontrado na biblioteca, não a coisa em si, mas algo sobre ela.
            Ricardo decidiu procurar por orgasmo na biblioteca também. Voltou ao sistema de busca. Inseriu a palavra, anotou o número de chamada e seguiu em busca do orgasmo na biblioteca, queria tirar  a prova daquela tolice! “Será? Será que encontrarei orgasmo na biblioteca? Isso é ridículo! E como inserir a palavra Deus e esperar que se encontre Deus por aqui! Que pensamento doentio! Mas já que estou aqui, por que não? Foda-se!”
            Como dito anteriormente, Ricardo jamais entendeu como aquele sistema funcionava, mas por intuição – chamemos isso de intuição – sempre achava o que queria.
            Passou por muitas estantes. Virou à esquerda, virou à direita, seguiu reto por mais alguns metros, virou à esquerda novamente, andou um pouco mais, virou à direita. Sentiu-se em um labirinto. Andou por mais alguns metros e ficou diante de uma parte da biblioteca que ele nunca tinha visto , embora acreditasse que conhecia bem a biblioteca. “Essa secção é nova? Devem ter aberto depois da reforma. Por fora a biblioteca não parece tão grande...”
            ***
            Uma moça loira e outra morena, ambas seguravam o mesmo livro. Liam juntas o “Experiência e prática do orgasmo feminino”. Ricardo sorri. Elas não notaram que ele estava ali. Ele teve tempo de contemplar todas as feições das moças. Ambas lindas. Ricardo sabia que sua imaginação não iria enganá-lo. Não pode ver as faces das moças antes, mas aqueles corpos já denunciavam a beleza de seus rostos.
            Elas desviaram o olhar do livro e repousaram suas vistas sob Ricardo. Devolveram o livro a prateleira, o que é contra as regras da biblioteca. Abriram um sorriso largo e malicioso, projetaram um olhar felino em direção a Ricardo e em passos leves se aproximaram do rapaz.

            “Você nos encontrou”, disse a moça morena.

16 de out de 2015

POR QUE DEVEMOS CUIDAR BEM DE NOSSOS PROFESSORES? PARA ESCAPARMOS DA BARBÁRIE.






Quando esse tipo de pergunta surge, há de se concordar que algo está errado em nossa sociedade. Se os professores não estão incluídas naquela parcela de nossa sociedade que merece respeito e honrarias, não haverá uma civilização para se celebrar futuramente. Posto que, o professor, em sua função de ensinar está incumbido de transmitir práticas e hábitos que tornem aquilo que chamamos de uma  humanidade menos opressora, menos cruel. Dito isto, gostaria de compartilhar um trecho do texto: “As funções de um professor”, escrito por Bertrand Russell:
            “Quando se observa este cortejo como um todo, sobressaem alguns homens dignos de admiração. Uns foram inspirados pelo amor da humanidade, outros ajudaram-nos com sua superioridade intelectual a compreender o mundo em que vivemos, outros ainda, mercê de uma excepcional sensibilidade, criaram beleza. Esses homens fizeram algo positivamente bom, capaz de ultrapassar a longa lista de crueldade, opressão e superstições. Fizeram tudo o que estava ao seu alcance para transformar a vida humana em algo mais do que uma breve turbulência de selvagens. O homem civilizado é aquele que, quando não pode admirar, aspira mais a compreender do que a reprovar. Nesse sentido, procura descobrir e remover as causas impessoais do mal do que odiar quem se encontra preso nas suas garras. Tudo isso deve fazer parte do espírito e do coração do professor, pois que, se assim for, tudo isso será transmitido durante o ensino aos jovens que estão sob cuidados desse professor.”

E se não cuidarmos de nossos professores, que tipo de futuro nos espera? Há também nesse texto uma visão do que pode acontecer se passarmos por uma situação em que ser professor é uma tarefa de castração de pensamento, Russel nos adverte:
“Mesmo assim, nos países totalitários, espera-se que o professor, ao ensinar essas matérias [tabuada e ler], não utilize métodos que lhe pareçam mais ajustados para alcançar os resultados escolares pretendidos, mas que inculque nos seus alunos medo, subserviência, obediência acrítica, exigindo-lhes uma indiscutível submissão à sua autoridade. E, quando se ultrapassa o nível elementar, então o professor é obrigado a adoptar a perspectiva oficial em todas as questões controversas. É por esta razão que na Alemanha Nazi, e ainda hoje na Rússia, os jovens se transformaram em fanáticos intolerantes, ignorantes relativamente ao mundo exterior ao seu próprio país, totalmente desacostumados de uma discussão livre e incapazes de aceitar que suas opiniões possam ser postas em causa sem que seja por efeito de um espírito malévolo.”
            Por que devemos preservar nossos professores? Simplesmente para que o futuro não seja algo como  aquele desenhado pelo torturador de 1984 de George Orwell:
ão haverá lealdade, exceto lealdade ao Partido. Não haverá amor, exceto amor ao Grande Irmão. Não haverá riso, exceto o riso de vitória sobre o inimigo derrotado. Não haverá nem arte, nem literatura, nem ciência. Quando formos onipotentes, não teremos mais necessidade de ciência. Não haverá mais distinção entre a beleza e a feiúra. Não haverá curiosidade, nem fruição do processo da vida. Todos os prazeres concorrentes serão destruídos. Mas sempre… não te esqueças, Winston… sempre haverá a embriaguez do poder, constantemente crescendo e constantemente se tornando mais sutil. Sempre, a todo momento, haverá o gozo da vitória, a sensação de pisar um inimigo inerme. Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota pisando um rosto humano – para sempre.

[…]

E lembra-te de que é para sempre. O rosto estará sempre ali para ser pisado. O herege, o inimigo da sociedade, ali estará sempre, para ser sempre derrotado e humilhado.

Ps . Há no texto de Russell uma desvinculação entre o saber a política, algo que eu não concordo. Para Russell a ciência é o saber podem ser associados a um tipo de neutralidade para com a política. Poucos são os pensadores que concordariam com isso em nossos dias.
PPs. Aos professores. Façam o favor a si mesmos e a vossa categoria: parem de vincular nossa profissão a algum tipo de vocação sacerdotal. É justamente esse tipo de pensamento que justifica o baixo salário da categoria, já que se considera que o que os professorem fazem é caridade. Sejamos mais francos: há bons professores e professores ruins. Não se pode estabelecer uma relação moral aqui. Ser professor e ser profissional e por isso merece todo o respeito e não porque são enviados por anjos para ministrar aulas!!!

PPPs. Gostaria de expressar minha sincera gratidão a todos os meu professores: formais e informais.